sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Aquele feriado

Era feriado! O restaurante estava lotado de gente que odeia ir para a cozinha em dia de folga no trabalho. Claro que estava ali pelo mesmo motivo. Cheguei e tomei um susto enorme com o tamanho da fila do self-service, mas já que estava ali resolvi encarar. Melhor a fila que comer arroz com ovo em casa.

Cinco minutos depois, prato feito e começava a busca por uma mesa. Eu sempre fico meio constrangido em pedir para sentar à mesa junto com alguém que não conheço, por isso buscava um lugar só pra mim, de preferência bem escondido. Olhei pro lado, andei pelo outro e de repente a pergunta:

- Quer sentar aqui comigo? – disse uma garota linda.

- Ah?

- Faz um tempão que vejo você rodando de um lado para outro com esse prato na mão. Se quiser, pode sentar aqui comigo.

Ela usava óculos, cabelo meio despenteado, cara de intelectual, do jeito que eu sempre imaginava uma companheira para mim. Não aquelas mulheres que parecem sair de uma fábrica de produção em série. Minha companheira de self-service tinha algo especial.

Sentei, apesar de estar muito constrangido. Meu prato era enorme e tinha de tudo um pouco. Ela deve ter me achado um esfomeado.  O prato dela dava gosto de ver, muito colorido e organizado. O meu era aquela gororoba de muitos sabores. E como começar a conversa em um restaurante se desde pequeno mamãe me ensinava a não falar de boca cheia? Claro que foi ela quem puxou assunto.

- Os restaurantes estilo self-service são um mal para a sociedade, não acha?

-  Ah? (Era a segunda vez que usava essa expressão, ela deveria estar me achando um idiota. Mas fazer o que diante de uma pergunta dessa?)

- Antes a gente vinha para um restaurante, sentava, pedia o cardápio, olhava todos os itens, isto geralmente já tomando alguma bebida , até que finalmente anunciávamos o escolhido. Enquanto aguardávamos o banquete, era o momento em que conversávamos sobre a vida, nossas alegrias e angústias. Muitas vezes não importava se o prato demorasse, pois a conversa era o que havia de mais gostoso no almoço.

- É verdade! (Ai, meu Deus, eu não conseguia desenvolver nada)

- E eis que a vida moderna nos apresentou o self-service, onde você coloca o que quiser no prato, senta, come e vai embora. Interagir pra que? Com quem? Você não acha?

- Acho! (Mais uma!)

A verdade é que o self-service nunca mais foi o mesmo para nós dois. A conversa fluiu. Deixei de ser monossilábico e desenvolvi o diálogo. Falamos sobre muita coisa: restaurantes, culinária (ela tinha o gosto bem diferente do meu), trabalho, família, solidão, amor, casamento, filhos...

Nosso discurso virou prática. Ficamos casados por 15 anos. E naquele feriado era sempre a mesma coisa. Eu chegava no dito self-service e o gesto era sempre o mesmo.

- Quer sentar aqui comigo? – ela repetia.

Foi ali, naquele mesmo lugar, que a pedi em casamento, onde ela anunciou que estava grávida e também onde anunciei que estava desempregado. Lá foi também o local em que celebramos a sua formatura, a sua contratação em uma ótima empresa, a minha promoção... Lembro bem do primeiro feriado com o nosso filho, e também do dia em que não pudemos ir, pois o pequeno estava doente. E foi naquele self-service que nosso amor ficou sem gosto... Era o fim da nossa mais longa refeição!

- Não dá mais, o gosto já não é o mesmo! – ela anunciou

Engasguei e chorei, enquanto ela seguia. Não sei se para um jejum ou para experimentar novos sabores...

No ano seguinte, após o fim do nosso casamento, lá estava eu. Não teria uma segunda chance? Não dava para temperar um pouco mais aquele relacionamento a fim de que ele voltasse a ser saboroso para nós dois? Parecia que não...

Parecia. No feriado deste ano, fiquei com medo de ir. Afinal, poderia me machucar. Ela não ia aparecer e mesmo que aparecesse, o que isso significaria? Resolvi ir!

Prato na mão, olhei de um lado para outro e nada. Sentei, naquela mesma mesa do primeiro dia. Cabeça baixa, pensativo, quase me conformando...

- Posso sentar aqui com você. O restaurante está lotado! – A voz era a mesma!

- Claro que sim! – Fui logo puxando a cadeira

- Nossa, como você mudou!

- Por que você diz isso?

- Seu prato está tão colorido. Nem parece aquele gororoba do dia em que gente se conheceu.

- Você achou é? (Eu sabia!)

- Claro, tudo misturado. Parecia que estava morto de fome.

- Pois é, tive de mudar a alimentação! Sabe como é, né? Idade avançando, doenças aparecendo...

- Sei como é isso, não? – disse sorrindo. O mesmo sorriso da primeira vez. O tempo parece que não havia passado.

Eu simplesmente ri. E voltamos a conversar sobre tudo: vida, trabalho, sexo, casamento, separação, filhos... O sabor era de comida requentada mesmo, mas nem por isso menos saborosa. Ficamos por mais de uma hora conversando e fomos convidados a nos retirar pelo dono do restaurante.

- E agora? – perguntei com água na boca!

- Agora, cada um vai para a sua casa! – disse ela!

Despedida sem sal para um relacionamento em que experimentamos todos os gostos e sabores. E no próximo feriado? Qual gosto terá minha refeição?

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Sinal dos tempos

É, amigo, o tempo passa!

Percebo que ele realmente passa depois de uma jornada de afazeres domésticos. O simples fato de varrer minha casa mostra que já não sou mais aquele ser cheio de vitalidade. Mas isso acontece não porque minhas costas doem, ou por ficar facilmente cansado, mas pela quantidade de cabelo que tenho de recolher pela casa. É fato: estou ficando calvo (Careca é uma palavra forte demais e me recuso a usá-la). Como diria a velha propaganda de shampoo: “Ei, ei, você se lembra da minha voz? Continua a mesma. Mas os meus cabelos, quanta diferença”. E que diferença!

Outro dia resolvi jogar futebol com meu filho e uns amiguinhos dele em um campinho próximo de casa. E mais uma vez recebi o sinal de que o tempo realmente passou. Com a bola dominada na defesa, olho para o garotinho lá na frente, tudo pronto para um lançamento perfeito que deixaria o pivete na cara do gol. Mas aí ele levantou a mão e gritou...

- Bora, tio, passa a bola!

Tio? Como assim, tio? O tempo em que fiquei paralisado pensando naquilo foi o suficiente para que outro garoto me roubasse a bola, me desse um drible por entre as pernas e chutasse no ângulo. Gol!

- Poxa, pai! Cê tá ficando velho, hein?

Era a sentença final!

Engana-se quem pensa que os sinais param por aí. André, um amigo que não via há muito tempo, me convida para um churrasco na casa dele.

- Vem pra cá! Chamei também toda a galera do tempo da escola para que possamos nos reencontrar! Minha família também vai estar aqui!

No dia marcado, assim que cheguei logo tive uma boa surpresa: meus amigos estavam tão carecas e barrigudos quanto eu. Sinal de que o tempo não passara só pra mim. Só mesmo o Fernando chegou lá com um corpo de dar inveja a qualquer adolescente de 15 anos.

- Dieta macrobiótica, galera!

Sei... Pra mim,  aquilo tinha outro nome: anabolizante! Mas deixa pra lá.

O teor das conversas da roda de amigos também tinha mudado. Se antes falávamos de mulheres, farras, projetos de viajar pelo mundo, hoje falamos de casamento – ou divórcios – e filhos. Daqui a pouco – eu espero que nem tão pouco assim – falaremos dos remédios que estaremos tomando para combater colesterol, obesidade, impotência (quem sabe?) e por aí vai...

Nossa amizade começou com festinha onde havia bolos e brigadeiros, consolidou-se nas comemorações de 15 anos, hoje se fortalece com os casamentos  e um dia nos encontraremos nos nossos velórios. É a vida!

Tudo ia bem no churrasco, contamos as mesmas piadas, rimos das mesmas situações em que dávamos gargalhados anos atrás, tudo na mais perfeita harmonia. Até que ela surgiu!

A Claudinha era a irmã mais nova do André. Costumávamos freqüentar a sua casa, pois era a única que tinha um espaço bacana para a gente bater uma bolinha e conversarmos besteira. E era comum a gente ver a Claudinha – ainda com três anos - passeando de calcinha pela casa. Brincávamos com ela que sempre arranjava um motivo para nos fazer rir. Era uma criança adorável, todo mundo queria pô-la no colo e mostrar aquele anjinho. Mas o que eu não imaginava era que o anjo tinha virado uma deusa.

- Rapaz, quem é aquela ali? – perguntei boquiaberto.

- É a Claudinha, irmã do André!

- Sério? Cara ela tá linda, né?

- Linda e ...

- Gostosa! – interrompi.

- Ia dizer inteligente... Com 18 anos já está no segundo ano de Medicina!

- Poxa, o tempo passa mesmo!

André se aproxima da gente e nos abraça.

- Muito bom ter vocês aqui depois de tanto tempo. Sinal que a vida passa e nossa amizade continua a mesma.

- Continua a mesma, mas a Claudinha... Quanta diferença!

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Marcas

Dói. Dói mais na alma do que na carne. A marca está lá, no peito esquerdo, bem próximo de onde fica o coração. Não sei como ela foi parar lá, muito menos o significado. Se alguém souber alguma pista, por favor, me avise!

É o seguinte.  Havia chegado a três décadas de vida sem ter cometido algo que não sei se era motivo de orgulho ou de frustração.  Nunca havia tomado um porre! Todos os meus amigos e várias de minhas amigas contam as histórias mais inusitadas das noites de farras em que beberam até simplesmente perderem a noção do que fizeram. Beberam, caíram e não levantaram. Eu já tinha bebido, mas até cair jamais...

Resolvi preencher essa lacuna da minha vida nada boêmia, mas mal sabia eu que aquela noite iria deixar uma marca para toda a minha vida.

Era uma quarta-feira, saí de casa determinado. É hoje! E como queria uma noite só minha, resolvi não envolver ninguém. A começar pelo dia da semana. Era jogo decisivo da Seleção Brasileira. Muita gente estaria em casa. Não liguei para nenhum amigo, muito menos avisei a ninguém da família. O porre era meu!

Comecei em casa. Comprei algumas garrafas de cerveja para ir tomando umas enquanto me aprontava para aprontar.

Queria beber até cair, mas como a responsabilidade ainda falava mais alto, chamei um taxi.

- Boa noite, senhor!

- Só vou saber se vai ser boa mesmo se você me levar para a melhor festa da cidade hoje.

- É pra já, senhor!

E assim foi. Dei uma checada antes para saber se não havia nenhum conhecido na porta e resolvi entrar. Fui logo para o balcão.

- Amigo!

- Ah?! – Era difícil ouvir naquele barulho todo.

- É o seguinte: eu tô a fim de tomar todas hoje. Não quero saber de dançar, nem que música tá tocando, o que eu quero mesmo é beber.

- Mas o senhor quer beber o quê?

- Sei lá, qualquer coisa que me faça esquecer dos meus problemas. Dizem que quando a gente bebe muito, aquele diabinho que fica pertubando no ouvido da gente fala mais alto né?

- Isso mesmo!

- Pois eu quero que o capeta grite bem alto!

- Espera um pouco!

O barman deu um sorriso sarcástico e deve ter feito a mesma cara de  Pôncio Pilatos ao mandar o Salvador para a cruz, enquanto lavava as mãos: “se é isso que você quer, é isso que vai ter”. Ele cochichou no ouvido da garçonete que rapidamente passou por debaixo do balcão e entrou em uma sala que parecia a administração. Voltou de lá em pouco tempo com uma pequena garrafa, arredondada, sem rótulo, do vidro escuro e pôs no balcão. O barman virou-se pra mim.

- Com essa aqui não só o diabinho vai falar alto como vai convocar todo o inferno...

- É essa mesmo! – E fiz o gesto de quem queria aquilo tudo para mim.

- Epa, epa! Não é assim não! Custa caro!

- Não vai dizer que tenho de vender a minha alma!?

O barman riu, negociamos rapidamente o preço daquilo que até hoje não sei o que é e comecei a noite mais louca da minha vida. Isto é, terá sido a mais louca mesmo? Porque a única coisa que me lembro realmente é de ter tomado duas doses, pequenininhas daquela bebida. Daí, então, não sei o que fiz, se bebi o resto da garrafa, como voltei pra casa, nada...

Só sei que hoje é sexta-feira, acordei em casa, a porta estava devidamente trancada por dentro, tem dinheiro na minha carteira, minha cabeça não dói, mas acordei com um pedaço de plástico no peito. Quando observei direito, vi que tinha feito uma tatuagem! Pensei que era daquelas temporárias que basta esfregar com mais força para sair, mas não. Era uma tatuagem mesmo! Uma letra! A letra “N”.

Mas como aquilo foi parar ali? Eu já havia afirmado para muita gente que jamais faria uma tatuagem, pois ficava imaginando como aquela pintura iria ficar em uma pele enrugada com o passar dos anos. E lá estava ela. Por que “N”? Por que no peito?

Seria a inicial das minhas duas ex-namoradas que coincidentemente começavam com N? Ou seria uma nova “N”que surgiu na minha vida naquela noite e tatuei a letra como prova de amor? Mas o “N”também poderia significar um “não”, para eu nunca mais fazer aquilo ou simplesmente um “não” para a vida medíocre que estava vivendo até então? Não sei. Só sei que estou com esse negócio no meu peito e cheio de dúvidas na minha cabeça.

Uma coisa é certa. O primeiro porre da minha vida – que nem lembro se curti muito – havia deixado uma marca pra sempre em mim.

E dói! Dói mais na alma do que na carne as incertezas que agora estão comigo!

P.S. "O pecado é mais saudável e alegre do que a virtude. Aqueles que trocam o vício pela beatice tornam-se velhos feios e desagradáveis." - Rubem Fonseca

terça-feira, 12 de julho de 2011

Má influência

Percebi que a minha solterice estava me fazendo mal não porque eu estava me sentindo solitário demais. Nada disso! As conseqüências negativas estavam surgindo, pois as esposas e namoradas de meus amigos já não deixam eles saírem comigo com a mesma freqüência de antes. Se antes eu era o cara bacana hoje sou a má influência.

Isso ficou claro na última sexta-feira. Vi que estava sendo marcado um encontro entre amigos depois do trabalho e ouvi toda a conversa entre a mulher do Marcão e ele.

- Quem vai?

- Ah, vai todo mundo aqui do trabalho. Cada um vai levar a sua esposa ou namorada e a gente fica lá bebendo, conversando...

- Ele vai?

- Quem?

- Você sabe de quem estou falando! – disse já alterando um pouco a voz.

- Claro que vai! Afinal é nosso colega de trabalho!

- Então, eu não vou!

- Como assim não vai?

- Se ele for ou não vou. - Era o ultimato!

- Mas, por quê?

- Ora, você sabe por quê. Ele fica contando as aventuras sexuais e amorosas dele e todos, sem exceção, ficam de olhos e ouvidos arregalados ouvindo aquilo e deixam de dar atenção a nós, esposas, para escutar o que ele tem a dizer.

- A gente só tá conversando, Laisinha! (Essa tática de usar o nome da mulher no diminutivo é típico do homem que sabe que jamais vai conseguir convencê-la).

- Conversando? Vocês só escutam! De vez em quando um ainda diz: “Conta mais!” E o outro completa: “Os detalhes, eu gosto mesmo é dos detalhes”. Mas o que mata mesmo é que vocês ficam de braços cruzados imaginando todas aquelas cenas que ele descreve e ao final todos, sem exceção, soltam aquele: “Ai, ai!”.

- Como é que é?

- Sei que ele é seu amigo, que já te ajudou bastante, mas precisa dizer o tal do “ai,ai”. Esse “ai,ai” é que mata.

- Tudo bem então. Vou falar para a turma que ele não vai.

E o Marcão chegou e contou toda a história que eu já tinha ouvido. Daqui a pouco o Cadu, o Paulo, o Cabeça, enfim todos os amigos que tinham namoradas ou esposas. Estava excluído do grupo! Arrumar alguém era urgente, ou não.

- Cara,você ficou chateado? – perguntou o Marcão.

- De jeito nenhum. Já fui casado e sei bem como é isso.

- E você, vai fazer alguma coisa hoje?

- Claro. Rapaz, conheci uma garota na semana passada que é um espetáculo. E umas primas delas chegaram hoje e estão todas hospedadas na casa dela. Acho que vou sair com elas.

- Sério? Conta mais!

- O final da história, meu amigo, na segunda-feira eu te conto.

- Ai, ai!

quarta-feira, 29 de junho de 2011

C.R.I.S.

O maior mistério da humanidade não é se existe vida em outros planetas. Muito menos a eterna pergunta de onde viemos e para onde vamos. Engana-se quem pensa que é: será que conseguirei pagar minha fatura de crédito no final desse mês? Pra mim, o maior mistério da humanidade é: o que se passa na cabeça de uma mulher? Oh, negocinho complicado esse!

Dia desses comentei com uma amiga.

- Vocês deveriam vir com um manual de instruções!

- Amigo, nem a gente se entende! – respondeu sabiamente, como elas sempre são.

É, se nem elas conseguem se decifrar, imagine o que significa essa tarefa para nós homens.

Foi tentando entender o comportamento da Cris que me deparei com o maior mistério da humanidade. Como é que um ser tão bonitinho, tão pequenininho, pode ser tão complicadinho?

Não conseguia entender as mudanças de comportamento, as aproximações e os sumiços, o abraço e a palavra mais dura, a admiração e a chateação, nada disso. Ficava me questionando por que. Onde estará o erro? Será de fabricação? Ou seria eu que não aprendi a manusear tão bem? Existiria mesmo um erro? Enfim...

Mas foi aí que descobri que Cris não era um nome. Muito menos um apelido carinhoso com o qual ela gostava de ser identificada. CRIS é um código que ainda estou tentando decifrar. Ela deve ser um produto fabricado por uma dessas agências secretas do governo criado com o único objetivo de me confundir. Não é a Cris é o C.R.I.S. O que significam as iniciais desse código?  Será que represento uma ameaça tão grande assim, a ponto dessa arma secreta ter sido criada só para me confundir?

Quando fomos apresentados – em uma terça-feira de Carnaval – a C.R.I.S. era a: Carismática, Risonha, Inteligente e Simpática. É claro que me encantei. Mas não demorou muito para aquele código começar a se transformar em um quebra-cabeças.

Foi em uma TPM que descobri  que a C.R.I.S. poderia ser Carrancuda, Ranzinza, Impaciente e Sarcástica. Mas essa não era a fase que mais me chamava a atenção. O que ela era mesmo era contraditória. Quem sabe Carinhosa, Raivosa, Inconseqüente e Sábia. Não, não poderia ser...

Eu tinha de descobrir aquele código! Aquelas quatro letrinhas poderiam até não ter um significado tão claro para mim, mas já tinham dado um novo significado para a minha vida. Com ela eu me sentia mais Carinhoso, Responsável, Inovador e Seguro.  Era o código tomando conta de mim.

A verdade disso tudo é que independente do que venha a ser significado do C.R.I.S., pra mim ela vai ser sempre a Cris. Assim mesmo, cativante, rara, instigante, sensacional e todas as demais qualidades e (e por que não) defeitos que cabem em todas as mulheres.


Nota do Baixinho: Esse texto foi publicado inicialmente no blog O Beijo - http://obeijo.wordpress.com/ - da pessoa que me inspirou para que ele fosse escrito. Como ela publicou de lá, eu resolvi publicar daqui! Espero que gostem!

quarta-feira, 1 de junho de 2011

O bom português

Cansado de relacionamentos improdutivos, resolvi colocar um ponto final em todas as vírgulas que apareceram na minha vida. Chega das dúvidas das interrogações, das surpresas das exclamações e das incertezas das reticências. Quero algo mais concreto! Nada do tipo: oração subordinada substantiva completiva nominal. Quero algo simples! Deixar de conjugar os meus verbos na incerteza do futuro do pretérito e viver algo no presente do tipo mais-que-perfeito. Se esse tempo verbal não existe, quero viver um neologismo, algo novo, porém só meu.

Apaixonado pela língua portuguesa como sou, resolvi criar uma fórmula para fugir daquilo que mais me irritava em uma mulher: os erros de português.

Tudo começou com a Clarinha. Linda, educada, extremamente gentil.

- Um doce! – Dizia a mamãe.

Mas houve aquele fatídico jantar na casa de um casal de amigos. Até então, eu já havia percebido alguns erros de concordância na fala da Clarinha, mas naquele dia ela ultrapassou todos os limites da minha paciência.

Tudo começou quando, sem querer, Clarinha derrubou o copo de cerveja que trazia gentilmente para mim da cozinha. O barulho assustou os três que estavam na sala.

- O que foi isso?  - perguntei.

- Nada, “foi” eu que derrubei o copo!

- Como? (Mais que a tragédia de um copo quebrado e a cerveja derramada no tapete importado dos nossos anfitriões, o que me chamou atenção verdadeiramente foi aquele “foi”. Por isso que insisti na pergunta, afinal barulho de um copo caindo ao chão não precisa de uma explicação tão profunda).

- “Foi” eu, amor! Derrubei um copo no chão!

- Não, Clara (O diminutivo carinhoso já foi pro espaço). Fui eu!

- Você também derrubou?

- Não, Maria Clara (Quando o cara fala o nome dela completo é que o negócio complicou ainda mais). O certo é “fui eu”.

- Como é que é? Você acha certo quebrar um copo?

- Maria Clara dos Santos (Xii.. sem comentários). O verbo ser na primeira pessoa do singular do pretérito perfeito é “fui”. Então o certo é “fui eu”.

- Ah, tá! Mas por que essa irritação toda? Besteira!

- Claro que não, Clarinha! Isso é português!

- Então é pra “mim” falar como?

- Não, Maria Clara! Não! É para “eu falar”!

- Mas você já não fala, amor?

- Quando o verbo é no infinitivo não se usa “mim”, mas “eu”.

- Usar você pra que mesmo?

- Ai, ai, já chega! Não dá mais!

- Mas o que foi, agora? Olha, “fazem” três meses que estamos juntos e nunca “lhe” vi desse jeito. Ou você vai esquecer todos os momentos maravilhosos que “houveram” entre nós?

Não sei se a quantidade de erros era fruto do nervosismo dela, ou se aquela era ela mesmo. Enfim, foi a última frase que ouvi dela. A Clarinha apagou-se definitivamente da minha vida.

Para evitar futuros constrangimentos, resolvi criar uma tática da carta ou bilhete de amor. Digo sempre para a minha pretendente.

- Nunca recebi uma carta de amor.

- Nunca mesmo?

-Nem um bilhetinho!

- Ah, pode deixar que escrevo uma para você!

Pouco me interessa o conteúdo, estou mesmo interessado no português. A língua portuguesa bem falada e escrita é fundamental para qualquer relacionamento, pelo menos para os meus. Faço a análise morfossintática de cada frase. Em cada oração bem construída vou descobrindo um pouco mais da mulher de minha vida. Observo cada vírgula, cada ponto. Erro de ortografia significa fim de relacionamento, assim mesmo no ato.

Mas um texto perfeito, bem concatenado, de preferência com citações de poetas e grandes escritores, significa que aquele imbróglio pode ir muito além de uma carta de amor.  

Será que ainda vou ter de ler muito?

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Redes Sociais

Hoje em dia não basta terminar o relacionamento e dizer.

-Nunca mais venha atrás de mim! Não me ligue mais!

Hoje é preciso dizer: - Não me ligue mais, me exclua do seu Orkut, não quero mais ser seu amigo no facebook e pare de me seguir no twitter.

Fim do amor na era pós-moderna requer também a exclusão da pessoa de todas as suas redes sociais. Ou vai me dizer que mesmo com o fim do relacionamento você não acaba dando aquela espiadinha no perfil do seu ex?

Com a minha foi assim. No dia em que saí de casa, após longos e bons anos de casamento, coloquei no Orkut: solteiro! Entre as várias perguntas como “O que houve?”, “É verdade?”, “Amigo, acho que invadiram o seu perfil, coisa de hacker com certeza”, “Ufa, até que enfim né?”, a que mais me chamou a atenção foi a da minha ex.

- Poxa, mas logo no primeiro dia?

- Mas foi você quem disse que não tinha volta.

- Mas no primeiro dia?

Enfim... A vida seguiu e sempre estranhei as visitas que algumas amigas próximas dela faziam ao meu perfil nas redes sociais.

Outro dia, criei um perfil no twitter para poder acompanhar notícias e fofocas a respeito de tudo e de todos. Essa sensação de você estar sendo seguido por centenas de pessoas é meio estranha. Dia desses comecei a conversar via facebook com uma menina que me deu uma cutucada (será que não tinha outro jeito menos incômodo de chamar atenção, afinal odeio quem me cutuca). Papo vai, papo vem e ela:

- Soube que você saiu com a Alessandra?

- Soube? Como?

- Tá lá no perfil dela: “Noite inesquecível na companhia de @eltonviana”.

- Ela escreveu isso?

- Sim, tá lá!

- Mas a sua noite pode ser mais inesquecível que a dela...

- Sei...

Acabamos o papo deitados na rede, abraçadinhos, aqui na varanda do meu apartamento.

Os relacionamentos através das redes sociais começam da maneira mais esquisita.  Você nunca viu a criatura, não sabe nada sobre ela (uma olhada básica nas comunidades que ela participa é sempre revelador) e geralmente informações como idade, peso e altura (esta última bastante importante para mim) a gente costuma dar uma melhoradinha. Um centímetro a mais aqui, dois quilinhos a menos acolá e a data de nascimento que nada condiz com a foto são mais que comuns. Mesmo sabendo dos riscos, resolvi arriscar.

Com umas me dei bem, outras eu exclui logo na primeira conversa, outras me deletaram me chamando de “mentiroso”, enfim continuava à procura de alguém que fique conectado a mim.

Foi pensando nisso que acabei procurando alguém que não entendesse nada de internet. Agora pra mim a mulher perfeita deveria pronunciar a seguinte frase: “Ah, esse negócio de computador não é para mim!”.

Assim encontrei Isaura na fila de um supermercado preenchendo um cadastro para um sorteio de um Ipad.

- Aqui pede um tal de e-mail. Eu não tenho!

- A senhora não tem? – respondeu a funcionária da loja

- Não, por quê? Algum problema? Odeio esse negócio de internet, computador, meu negócio é olho no olho.

Saiu sem preencher a ficha completamente. Ouvi aquela frase de longe e corri para tentar puxar conversa de alguma forma. (Explicação! Tenho um defeito: nem tudo aquilo que escrevo tenho coragem de falar. Meus últimos relacionamentos sempre vieram através das redes sociais e no ambiente virtual não sou tímido. Tanto que a frase que mais escuto quando encontro a garota pessoalmente é: “Nossa como você é diferente!”. Enfim, voltemos ao supermercado!)

- Os ovos! (Meu Deus, como é que se começa um diálogo desse jeito)

- O quê?

- O empacotador colocou os ovos na parte de baixo do carrinho, podem quebrar!

- Ah, obrigada!

- Quer ajuda para carregar as compras? Não cobro nada! (Mal sabia ela que iria pagar um preço alto por aquilo: me aturar).

E fomos até o carro. Claro que puxei uma conversa!

- Preencheu a ficha do sorteio?

- Eu não! Pedia e-mail e odeio internet. (A frase de novo!)

Compras no porta-malas, elogios feitos, telefones trocados, aperto de mão e enfim tinha encontrado a mulher perfeita.

Era tão avessa a internet que um dia fui surpreendido com uma carta escrita à mão na minha caixa de correios. Nada de seguir em twitter, nenhuma cutucada no “face”, se fosse desonesto poderia até deixar no meu perfil a palavra “solteiro”, afinal ela nunca acessaria mesmo.

O namoro ia bem, até que ela começou a trabalhar em uma empresa de consultoria. O salário era excelente, poderíamos começar a planejar um casamento, mas sempre tem uma desvantagem.

- Amor, lá na empresa disseram que eu preciso estar envolvida com as redes sociais. Preciso que você me ajude com isso, pode ser?

- Como assim?

- Twitter, facebook, Orkut, MSN, tudo isso que eu não entendo absolutamente nada e agora preciso entender. Você me ajuda né?

Isaura foi contratada e em pouquíssimo tempo já assumia a função de gerência na empresa. Ficou conhecida por sua habilidade em fazer relações através das redes sociais. Enquanto isso, estou solteiro de novo...