terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Esse daí

O casal só é realmente um casal quando existe um apelido entre eles. Pode ser um simples “amor”, ou um angelical “anjinho”, um saboroso “docinho”, um sem gosto “chuchu” ou mesmo um “tchuchuco”. Não importa, o importante mesmo é ter um codinome. Tanto que o apelido é único. Para Maria o João será sempre o “Zinho”, assim como para ele, ela será sempre a “Zinha”. No dia em quem o João chamar a próxima namorada dele de “Zinha”, vixe. Melhor nem comentar...

É no começo do namoro que eles surgem. Geralmente associados a uma característica física, de comportamento ou mesmo aqueles que colocam nomes de casais históricos do cinema ou da História como apelidos. Eu mesmo conheci um casal que se tratava por “Bê” e “Bi”. Questionei porque eles se chamavas Antônio e ela Rosa.

- É uma referência ao filme “Bernardo e Bianca” que já assistimos várias vezes juntos. – esclareceu o apaixonado Bê.

Mas assim como o apelido marca um relacionamento, ele também pode mostrar que as coisas não estão nada bem. É quando o codinome carinhoso é substituído por um pronome demonstrativo.

- Esse daí? Nem pra acordar cedo e colocar os meninos pra tomar banho é capaz! – sentencia a mulher.

- Aquela acolá? A gente morre de ensinar como ligar a televisão e ela não aprende.

Olha, quando o seu relacionamento tiver atingido esse nível de pronome, comece ficar preocupado. O nome é demonstrativo não à toa, mas para deixar demonstrado que algo não anda nada bem entre o casal.

Ter o seu apelido carinhoso substituído por um pronome demonstrativo é bem pior que ter todo o nome dito pela sua amada, ou ex nesse caso. O importante é sentar e saber em que ponto o pronome de tratamento carinhoso foi transformado em pronome de desdém.

- Rapaz, ontem a minha esposa fez uma lasanha... Delícia!  - comentou Cláudio em uma roda de conversa entre casais.

- Pois essa daqui prefere me ver morto de fome a chegar perto da cozinha.  – Emanuel deixava claro que as coisas não estavam muito bem.

- Morrer de fome? Você? Com tanta reserva nessa barriga vai ser difícil. - ali estava claro que as coisas estavam péssimas entre Emanuel e Josefina.

E foi uma sucessão de reclamação de ambos os lados durante toda a noite. Por mais que Cláudio e Teresa tentassem mudar de assunto era uma “essa daí”, “aquele acolá” a toda hora pra quebrar o clima.

Já em casa, com os nervos a flor da pele, Emanuel e Josefina mal se olhavam. Mas um dos lados sempre está disposto a levantar a bandeira da paz. E lá foi Emanuel:

- Ei!

- Fala logo que eu quero dormir!

- Estou mesmo gordo?

- Demais. Nem suas calças cabem mais.

- Você me ajuda a emagrecer? Seria capaz de fazer uma saladinha pra mim no jantar amanhã?

- Depois de tudo o que você falou de mim lá na casa do Cláudio? Jamais!

- Poxa, Josefina (reparem que já estão se tratando pelo nome). É que vi quando a amiga da Teresa chegou e você disse: “aquilo dormindo no sofá é o meu marido”. Doeu ser considerado quase um objeto. Me senti uma mala velha. Desculpa pelo que eu falei. Não queria te magoar.

- Tá bom, amanhã eu faço tua salada. Mas é pra comer toda, viu?

- Claro, minha florzinha.

- Florzinha? Faz anos que você não me chama assim.

- Pois é, mas hoje eu resolvi chamar, porque tenho saudade do tempo que te cheirava todinha.

- Para com isso, Emanuel.

- Paro nada! Deixa eu dar um cheiro no pescoço.

- Assim não vale.

- Claro que vale. – e cheirou.

- Oh, meu ursão!

E assim, o pronome demonstrativo deu lugar novamente a um pronome de tratamento que só os dois entendiam.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Provas de amor

- Você me ama mesmo?

- Claro, ainda duvida?

- Pois prove!

Provas de amor sempre são complicadas. O amor não é uma ciência, não pode ser medido. Como a pessoa vai provar que está amando realmente? Não dá pra ir a um laboratório, fazer um exame de sangue e o médico comprovar.

- Vejo que o senhor está ligeiramente apaixonado?

- O senhor tem certeza, doutor?

- Sim, claro. Os exames mostram que ainda é bem inicial, nada contagioso.

E todos sabem que quando a gente está verdadeiramente amando, contagiamos todo o ambiente.

- Olha lá, olha lá?

- O quê, Gertrudes?

- Aquele casal se beijando loucamente. Aquilo sim é que é amor.

- Pois vem aqui e me beija!

E são várias as provas de amor que temos de dar ao longo de um relacionamento.

- Amor, nunca ganhei flores suas, sabia?

- Como não? Lembra daquele dia no sinal...

- Que o homem estava vendendo flores pro Dia dos Namorados?

- Isso mesmo! Aquilo era uma flor, não era?

- Uma rosinha muito da mixuruca!

- Mas era!

- Queria mesmo era um buquê, bem, grande, daqueles que a gente nem pode segurar por baixo, tem de abraçar.

- Pra que?

- Seria uma grande prova de amor.

- Que nada. Flores murcham e morrem. O que nunca vai acontecer com o nosso amor.

- Oh, meu tchutchuquinho.  Sempre com uma palavrinha romântica.

Mulheres, principalmente, pedem as tais provas de amor a todo tempo. E não adianta fazer do seu jeito, tem do ser da maneira que ela sempre imaginou que fosse. Se é caixa de bombom, você tem de saber se ela está de dieta. Uma roupa? Pode ter certeza que o homem sempre vai errar o manequim. Um jantar romântico? Tem de saber exatamente o que ela gosta de comer (e quase sempre o homem erra). Uma pelúcia? Será que ela não é alérgica?

O amor não precisa dessas tais provas. Precisa ser vivido, simplesmente. Mas, atenção mulherada, quer uma prova de amor verdadeira de um homem?  Marquem um encontro no dia e horário em que o time dele estiver disputando um jogo decisivo. Se ele abrir mão de uma disputa de pênaltis, acredite, você encontrou o homem que será capaz de tudo para manter aquele relacionamento.

Na dúvida se aquele “fica” viraria “fixo”, Jaqueline propôs um encontro para Humberto, torcedor fanático do América.

- Na Quarta?

- Por quê? Algum problema? Na quarta-feira você não tem aula!

- É que eu já tenho um compromisso.

Ela já sabia que naquele dia e na hora do encontro, o América estaria disputando as oitavas de final do campeonato piauiense da terceira divisão.

- Que compromisso é mais importante que você ficar comigo?

- Pois é, né? Mas é que ... Não é necessária minha presença lá, sabe? Mas eu tenho de dar força pra quem vai estar lá, compreende?

- Ah, o tal compromisso nem seu é? Então me esquece.

- Tá bom, Jaque. Tá bom! Vamos sair na quarta, sim.

Humberto ainda pensou em desmarcar, levar um rádio escondido, subornar um garçom pra ficar trazendo o resultado do jogo em um guardanapo, mas achou melhor não.

Saíram, riram e se divertiram. No local do encontro, nada de TV, pra não atrapalhar. Ao final:

- Muito obrigado, Humberto. Hoje eu sei que realmente você é o homem da minha vida!

- Só hoje?

- Isso, porque sei do que você abriu mão pra estar aqui comigo. Foi a maior prova de amor que já me deu.

- Sabe mesmo, amor? Você não sabe o quanto eu sofri por isso, mas está valendo a pena.

- Mas tenho algo muito sério pra te dizer.

- O que foi agora?

- O jogo foi para os pênaltis.

- Sério? Meu Deus e agora? Como você sabe?

- Pedi ao garçom que ficasse me avisando do placar pelo guardanapo. Terminou empatado em zero a zero. E agora vai para a disputa de penalidades.

- Poxa! Vou perder isso!

- Vem cá! Tenho algo aqui pra você.

- Um fone?

- Vamos acompanhar a disputa de pênaltis pelo rádio aqui, juntinhos.

O América perdeu a disputa. Bitonho, o craque do time, perdeu a última cobrança. Jaqueline e Humberto acompanharam tudo ali, de rosto colado, com a certeza de que não seria necessária mais nenhuma prova de amor para que os dois ficassem juntos.






sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Ai, ai...

Todo mundo tem alguma história não encerrada no passado. Quase sempre histórias de amor. Aquela amiguinha da escola que não te largava na hora do recreio, ou a colega da faculdade que sempre queria estar no mesmo grupo de estudos que o seu, ou ainda aquela menina da rua que sempre que você passava perguntava se não queria entrar pra tomar um café ou várias outras que surgem ao longo das nossas vidas e não sabemos como lidar com a situação.

Todas as noites, já na cama ao lado da esposa, antes de fechar os olhos, Pedro dava um beijo na testa de Beatriz e dizia:

- Ai, ai!

Virava e dormia.

Até que um dia, quando estava prestes a completar um ano de casado, Pedro confessou.

- Bia, senta aqui. Quero conversar algo sério com você!

- O que foi, meu bem?

- Você sabe que eu sou completamente apaixonado por você e que encontrei em ti o porto seguro da minha embarcação que andava meio perdida.

- Sim, sei. Ou melhor, acho que sei, né? Que conversa é essa agora?

- Quero passar o resto da minha vida contigo, mas...

- Mas o que, Pedro?

- Preciso de um final de semana pra resolver um problema.

- Que problema?

- Esse é outro problema. Você não pode saber o problema que tenho pra resolver.

- Como assim?

- Tem uma história do meu passado que não terminou. Preciso transformar as reticências em  um ponto final e não mais deixar essa interrogação na minha vida, entende?

- Não, não entendo!

- Você me ama?

- Muito.

- Pois confie em mim. Amanhã saio de casa e volto ainda no domingo pra jantarmos.

- Como assim?

- Eu preciso disso. E mais: você vai me prometer que nunca, mas nunca mesmo, vai perguntar algo sobre esse final de semana. Preciso disso para continuarmos juntos.

- Mas Pedro, eu não estou entendendo mais nada.

- Te juro. Um final de semana em troca de uma vida toda. Só o que estou pedindo.

No dia seguinte, Pedro arrumou uma pequena mochila, deu um beijo na bochecha de Beatriz e disse:

- Até domingo!

A porta se fechava, mas antes que ela cerrasse um turbilhão de dúvidas entrava na cabeça de Beatriz. Afinal que história no passado era essa? Era alguém que não foi pra igreja no dia do casamento e não se manifestou na hora do “cale-se para sempre”? Uma amiga da escola? Da faculdade? Hum... Tinha aquela secretária do trabalho que ele sempre elogiava, mas essa não. Aquela não merecia nem cinco minutos, imagine então um fim de semana.

E foi assim todo aquele fim de semana. Bia ainda pensou em ligar para o telefone de Pedro, mas antes que o pensamento virasse ação ela percebera que ele deixara o telefone desligado sobre o criado-mudo que ficava ao lado da cama.

A melhor coisa era sair, desopilar e não pensar onde Pedro estava. Um cinema com as amigas era uma boa opção.

- Você me chamando pra ir ao cinema? Que milagre é esse? Você e o Pedro não se largam um instante. Ele vai também? – perguntou Ana, melhor amiga de Beatriz.

- Desta vez ele não vai.

- Por quê?

- Viajou.

- Viajou pra onde?

- Viagem de negócios.

- Hum, amiga. Que tipo de negócio?

- Vai ou não vai ao cinema?

Onde menos a atenção de Beatriz estava era na história que se passava na telona. O que Pedro estaria fazendo? Com quem? E que passado era esse?

- Gostou?

- Do que?

- Do filme, Bia?

- Ah, sim. Gostei muito!

- Pois eu detestei. Eu e a maioria das pessoas. Você entendeu aquela parte do...

- Aninha, vamos ao salão? Desculpa mas não estou muito a fim de conversar hoje.

- Nossa, Bia. Você tá meio grossa mesmo. Tá preocupada com o tal negócio do Pedro?

- Muito!

- Pois me conta o que é.

- É segredo.

- Ah, amiga. Segredo?

- Pois é, Ana. É segredo até pra mim.

Ana preferiu não tocar mais no assunto. O final de semana se arrastava. Cada minuto parecia um século.
Livro, filme, internet, nada adiantava pra distrair Beatriz.

O domingo foi ainda pior, pois ela já não sabia sequer se Pedro iria voltar. E se o passado de repente fosse um tal de “pretérito mais-que-perfeito”? Melhor não pensar.

Já à noite, Beatriz caminhava pela casa desesperada. Meu Deus, e agora?

Quando menos espera, ela escuta o barulho da chave abrindo a porta. Pedro voltava como havia prometido. Sorriso no rosto, um buquê de rosas na mão e uma pizza na outra.

- Marguerita.

- Ah?

- Sua pizza preferida. Sei que não comeu direito esses dias.

- Você que pensa, nem me preocupei. Fui ao cinema com a Ana, cuidei das minhas unhas, cabelo, o tempo passou rapidinho.

- Tá bom, Bia. Acredito em você!

- E lá? Deu tudo certo?

- Sem perguntas, tá?

- Tá bom, então. Não vai me dizer nada?

- Tudo que vem, vem com algum propósito, assim como tudo que vai, vai por uma razão e o que fica é o essencial. E hoje sei que tenho o essencial para viver o resto da minha vida.

Jantaram, riram, assistiram a um filme agarradinhos como se nada tivesse acontecido. Depois, já na cama, Pedro olha pra Beatriz, dá-lhe um prolongado beijo na boca, vira-se pro lado e deita dizendo:

- Boa noite, Bia. Te amo!

Surpresa com a frase, Bia passa a mão nas costas de Pedro, beija a bochecha de seu amado e vira-se pro lado dizendo:

- Ai, ai!

terça-feira, 22 de julho de 2014

Três centímetros

Minha estatura nunca foi problema quando se trata de relacionamentos, até o dia em que me apaixonei por alguém com três centímetros a mais que eu.
Era pra ser uma noite perfeita, quando ela iria conhecer meus amigos na colação de grau de um deles. Mas um gesto mudou tudo.
Até então tudo corria perfeitamente. Como era uma festa onde todas as mulheres gastam até o que não podem para ficarem mais bonitas, Cláudia usava um vestido longo vermelho, um penteado que deixava o pescoço à mostra – o que a deixava ainda mais sensual, com aqueles pequenos fio de cabelos que escorrem pela nuca  – e, claro, um salto que me já me deixava  em uma condição um pouco mais inferior,
mas aquilo não era problema.
Um ou outro comentário do tipo:

- Nossa, como ela é linda.

- É sim!

- E bem mais alta que você!

- É que depois de algum tempo resolvi  praticar escalada.- respondia com bom humor.

Até que em uma roda de conversa, quando todos estávamos em pé, Cláudia um pouco cansada fez um breve movimento com o cotovelo e o encostou em meu ombro. Precisava fazer aquilo?
Naquele momento, os três centímetros transformaram-se em uma diferença absurda. Sabe quando você está cansado e se debruça sobre o balcão de um bar? Me senti assim, um encosto, um balcão, um banquinho em que você encosta o pé para poder descansar um pouco. Ainda pensei em fazer um gesto bruto e ela se desequilibrar, mas não podia ser rude com a mulher que até então eu amava.

Tranquei a cara até o final da festa. Não havia mais clima para estar ali, muito menos para continuar aquele relacionamento. Não sei onde estava com a cabeça de me apaixonar por uma pessoa que era anatomicamente maior que eu. Até pra segurar na cintura dela na hora em que estávamos dançando foi difícil. Olhava pro lado e via o Jorjão no alto dos seus quase dois metros chamando atenção e eu ali agora com um complexo de inferioridade. Tudo isso por causa de um cotovelo no ombro.

Chegando em casa a DR foi fundamental.

- Meu amor, o que aconteceu? De repente parece que você ficou chateado!

- Cláudia, acho melhor a gente não continuar nosso relacionamento.

- Mas por quê? O que houve?

- Não houve nada. É o que é.

- Então o que é?

- São três centímetros. É isso?

- Como assim Rogério?

- Você é três centímetros maior que eu e isso nos distancia demais.

- E desde quando eu ser um pouco maior que você se tornou problema?

- Desde hoje, Cláudia. Que você é maior todos já sabem, era evidente, com o salto ficou ainda maior...

- Ah, mas se o problema é o salto eu não uso mais.

- Não é o salto. Foi você ter se escorado em mim. Me senti um encosto, um balcão de um boteco...

- Mas meu amor, aquilo foi um gesto tão simples.

- Simples pra você, pra mim aquilo foi o fim. Não quero ser encosto pra ninguém.

- Rogério, eu te amo.

- Eu também te amo, mas três centímetros fazem muita diferença.

- Rogerinho...

- Não me chama assim que complica ainda mais.

- Tá bom, Carlos Rogério. Entenda o significado daquele gesto. Odeio usar salto, estava ali ao seu lado há horas passeando por aquele salão lotado, caminhando e sorrindo para conhecer todos os seus amigos. Quando paramos naquela hora, já era uma tortura estar em pé e o único momento de alívio foi quando pude me encostar no seu ombro. E é assim que quero você, meu querido. Nos momentos em que mais precisar terei em ti o apoio que tanto preciso e necessito.

- Oh, Claudinha. Me desculpa! Brigar por causa disso, não faz mesmo o menor sentido.

- Não faz mesmo!

- Pois desce aqui e me beija!

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Reconciliações

Tudo bem que confusão rima com tesão, mas uma coisa não está diretamente ligada a outra. Desde que Sônia colocou na cabeça a ideia de que as melhores transas acontecem depois de uma reconciliação, nunca mais o pobre Alberto teve sossego.

- Atrasado de novo?

- Como assim atrasado? São oito e meia.

- Por isso mesmo. Você sempre assiste à última parte da novela comigo e eu ao primeiro bloco do Jornal Nacional contigo. E hoje, como vai ser?

- Meu amor, só me atrasei porque passei antes na padaria para comprar um bolinho pra gente comer amanhã no café.

- Sei. Você estragou minha noite, Carlos Alberto. Quer saber? Vou me mudar pra casa da minha mãe.

- Como assim, Soninha?

- Não vem com essa de diminutivo. Soninha, amorzinho... Me esquece!

- Tudo isso por causa de quinze minutos?

- Ah, pra você são apenas quinze minutos, né? Carlos Alberto, aqueles são os únicos quinze minutos que nós temos durante o nosso dia. Você sai cedo de casa, enquanto eu ainda estou dormindo, não tomamos café da manhã e muito menos almoçamos. E aí você chega atrasado e ainda vem com história de que são apenas “quinze minutos”.

- Mas meu amor, eu tava comprando o bolo que você mais gosta justamente pra te agradar.

- Não vem com essa, Alberto. E tem mais, hoje ainda teve o agravante de ser o capítulo em que a Maria Tereza descobre que o Ernesto estava tendo um caso com a melhor amiga dela. E você sabia disso porque vimos a chamada da novela ontem, quando você não chegou atrasado.

- Então tá certo. Vamos nos separar por causa do atraso? É isso?

- É isso mesmo! Você não me respeita e nem me valoriza. E ainda estava te esperando pra jantar. Agora estou com raiva e com fome, ninguém merece.

- Sônia, senta aqui.

- Não.

- Senta, por favor. Deixa eu te dizer uma coisa.

- O que é?

- Daqui a meia hora, o capítulo inteiro já estará na internet. A gente toma um banho, esfria a cabeça, janta e assiste ao capítulo de “Paixões Avassaladoras” ali na nossa caminha, agarradinhos, vai ser muito melhor.

- Carlos Alberto, Carlos Alberto!

- Vamos lá, vai. A tecnologia é uma aliada do nosso amor.

- Alberto! Alberto!

- E sabe de uma coisa? Você fica ainda mais linda quando está zangada.

- Oh, Betinho. Me desculpa!

- Vamos pro banho?

- Não, prefiro uma passadinha rápida na cama.

E então, o casal Sônia e Alberto viveu mais um feliz capítulo da sua história de amor.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

História de amor macabra

São nas situações mais inusitadas e quando a gente menos espera que surgem as pessoas que mais mexem com o nosso coração. Não sou muito adepto aquela história: “Vou te apresentar uma amiga” ou “Rapaz, conheço uma garota que combina perfeitamente contigo”. Pra mim quando algo tem de acontecer, acontece, mesmo quando a gente menos espera. Tenho um amigo que encontrou o amor da vida dele após ter batido na traseira do carro dela. Ele saiu para reclamar dela ter freado bruscamente, mas quando a viu logo foi dizendo.
- Me perdoe, a culpa foi toda minha. Vamos acertar tudo!
E entre as conversas sobre o conserto do carro, ele acabou se oferecendo a dar-lhe carona todos os dias e assim estão indo juntos até hoje.
Mas essa história toda é pra contar o meu drama. Acreditei que tinha encontrado a mulher da minha vida em um cemitério. Há cinco anos eu estava no velório de um pai de um grande amigo quando de longe percebi uma moça próxima de onde um corpo estava sendo sepultado. Vestidinho básico preto (que deixava marcado a escultura que era o corpo abaixo dele), óculos escuros e um semblante triste que me encantou. Observei também que ela não usava aliança, portanto não era a viúva de quem estava sendo sepultado. Logo pensei em me aproximar e dizer algo que lhe trouxesse conforto, mas fiquei na minha. Se não soube dizer algo nem ao meu amigo naquela manhã, imagine para alguém desconhecido. Mesmo assim pensei em chegar junto com um diálogo do tipo:
- Pois é, né?
- Ah?
- Era uma pessoa tão boa!
- Esse daí? Já foi tarde!
Melhor evitar a possibilidade...
Fiquei imaginando uma forma de poder me aproximar, mas o pai do meu amigo, ou melhor, o corpo do pai do meu amigo, ia ser enterrado e eu precisava dar apoio à família. Para minha sorte, a cova “meu defunto” era ao lado da cova do defunto dela. Após os discursos e muitas lágrimas, resolvi me afastar um pouco da cerimônia do sepultamento e perguntar ao coveiro que ainda jogava um pouco de terra sobre a cova do conhecido da minha pretendente.
- E aí, meu irmão! Bom dia, tudo bem com o senhor?
- Mais ou menos, esse trabalho de enterrar os outros é meio complicado. A gente botando o cara no buraco, a família chorando, de vez em quando uma pessoa grita dizendo que quer ir junto, mas vamos lá... É a vida! Mas o que o senhor quer? Ninguém fala com coveiro!
- O companheiro por acaso sabe quem é esse daí que o senhor tá em cima?
- Rapaz, é um tal de Júlio Ribeiro Castro. Dizem que era um empresário. O senhor viu a quantidade de gente que tinha no enterro?
- Vi sim e como vi. Tenha um bom dia!
Saí dali certo de que iria começar uma busca para saber quem era o tal de Júlio Ribeiro Castro. Se era casado, se tinha filhos (ou filhas), vasculhei qualquer informação que pudesse me levar àquela garota. Descobri então que a família Ribeiro Castro era originária daqui, mas que fizera fama e fortuna no comércio do Acre. O tal de Júlio era um dos mais velhos e fundou a “Durma Bem” Indústria de Colchões. Casou-se em Rio Branco, com uma acreana chamada Flora, mas sempre que podia, vinha à Fortaleza visitar seus amigos. Aos mais próximos já tinha manifestado o desejo de ser enterrado em sua terra natal. Por ironia do destino, morrera enquanto dormia, talvez em cima de um dos tantos colchões que ajudou a fabricar.
Dizem que Seu Júlio entrou no ramo dos colchões não porque gostava de dormir, mas porque adorava fazer outra coisa em cima deles. Com isso, ele teve vários herdeiros, alguns fora do casamento. Eu acreditava que a minha pretendente deveria ser uma delas. Passei a acompanhar o obituário dos jornais de Rio Branco todas as manhãs, pois se havia uma possibilidade de eu encontrá-la de novo, com quase toda certeza, era no enterro de algum parente. Nunca torci tanto, que Deus me perdoe, pela morte de uma pessoa.
Houve uma época em que a Dona Flora esteve muito mal de saúde, os médicos chegaram a desenganá-la, mas em uma recuperação que surpreendeu a todos – e entristeceu a mim – ela reassumiu os negócios da família. Até pensei em contratar alguém que pudesse fazer algo contra aquela família, mas achei que a insanidade de fazer isso era maior que a obsessão que eu tinha para encontrar a tal Ribeiro Castro.
Mas ontem pela manhã, uma notícia me pegou de surpresa. “Nota de falecimento: a família Ribeiro de Castro convida a todos para o sepultamento da estimada Olga. Foram momentos inesquecíveis que vivemos ao seu lado”. Pronto, era a oportunidade que eu tanto esperei por cinco anos. Mas como eu poderia atravessar praticamente todo o país a tempo de chegar para o velório e o enterro?
Gastei até o que não tinha para estar hoje pela manhã em Rio Branco. Inventei uma desculpa no trabalho, falei com meus amigos que estava indo em busca de uma aventura que podia até ser macabra, mas eu tinha certeza que ela era a mulher da minha vida. Foram quase 5 mil quilômetros, doze horas de viagem, com escalas e conexões para tentar chegar ao cemitério a tempo de encontrar a minha amada.
Parecia um maluco, chegando ao cemitério e perguntando onde a Olga estava sendo enterrada. Corri feito um louco, pulando lápides, derrubando flores e passando por famílias que choravam por seus parentes. Foi quando vi de longe as mesmas pessoas que estavam no cemitério há cinco anos.
- Só pode ser ali, pensei eu!
E era. Meus olhos buscavam aquele rosto, o tal vestidinho preto básico, mas nada de eu encontrá-la. Observei bem todos os presentes e não a encontrei. Foi quando pensei: Será?
- Moça, desculpa a pergunta, mas quem é essa daí que está sendo enterrada?
- É o Olga, filha mais velha do Seu Júlio. Moça jovem, bonita e inteligente. Morreu igual ao pai. Dizem que é um problema genético no coração.
- A senhora tem uma foto dela?
- Claro! – e mostrou a foto – Você a conhece?
- Não, mas queria tê-la conhecido.
Era a minha Olga que tinha falecido. Lembram que eu disse que tinha encontrado a mulher da minha vida no cemitério? Pois é. Encontrei mesmo!
Pior foi o papelão que ainda fiz no enterro tentando me jogar na cova enquanto um pobre coveiro dizia:
- Calma, senhor! Calma!


quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Passado. Presente... Futuro?

A incerteza diante do minuto seguinte, da hora que vem, do dia que não chega é um dos maiores conflitos para os seres humanos. Tanto que são inúmeros os filmes e livros que falam sobre máquina do tempo, a possibilidade de conhecer o futuro, voltar atrás no tempo para corrigir algum erro... Afinal quem nunca quis ter saído um pouco mais tarde da boate naquela noite, ter passado antes na farmácia pra ter comprado preservativo, não ter ido a casa dele (a) naquela noite, ter dito não ao invés de sim, ou “melhor não” quando você sabia que a coisa iria piorar... Mas enquanto não se pode mudar o passado, o jeito é tentar adivinhar o futuro. E era isso que aquelas três amigas estavam dispostas a fazer naquela tarde.
A fama de Irmã Isaura já percorria toda a cidade. “Não posso consertar os erros do seu passado, mas te ajudarei a não errar mais no futuro”. Com este slogan, ela atraía centenas de pessoas, todos os dias, para uma tenda colocada no meio de uma praça em um bairro da periferia da cidade. “Até agora ela não errou nada”, eram os comentários de quem ia chegando à praça. “Irmã Isaura disse que meu marido iria morrer. Duvidei até o dia em que o homem cai durinho de cara na sopa na hora do jantar. E olhe que ele tinha uma saúde de ferro”. “Acertar o futuro como essa daí? Tô pra ver nascer outra”. As amigas se aproximavam da fila quilométrica enquanto ouviam vários depoimentos dos feitos da Irmã Isaura.
Clarisse, Magda e Aline viviam situações diferentes. A primeira estava recém-divorciada, a segunda recém-casada e a terceira sempre encalhada.
- Eu vou primeiro. – disse Aline. Quero saber qual o tamanho da pedra que eu joguei na cruz pra nunca ter arranjado um homem que presta nessa vida.
- Amiga, homem nenhum presta. – comentou Clarisse.
- Você só diz isso porque acabou de levar um pé na bunda.  – retrucou Magda.
- Ah, nem vem. Você fala isso porque arranjou um homem bom. Isto é, ele é bom mesmo? – indagou a despeitada Clarisse.
- É ótimo, maravilhoso, nunca tinha sentido o que estou sentindo agora. – falou a convencida Magda.
- Então se tem tanta certeza de que o Arnaldo é tão maravilhoso assim, que você o ama e que serão felizes para sempre, o que veio fazer aqui? – perguntou Aline.
- Ah, o futuro a gente nunca sabe, não é? – respondeu a agora desconfiada Magda.
- Mas espero que a Irmã Isaura saiba. – afirmou Clarisse.
As três estavam angustiadas, já se passavam quase quatro horas naquela fila e ainda havia pelo menos umas dez pessoas na frente delas. A cada indivíduo que saía a expectativa aumentava. A pergunta na saída era sempre a mesma:
- E aí, o que ela te disse?
E as respostas eram as mais variadas. Algumas pessoas saíam incrédulas, outras confiantes... Um jovem e belo rapaz chamou atenção quando saiu.
- Tá vendo que um negócio desse não é capaz de acontecer. Essa mentirosa da Irmã Isaura dizendo que a minha esposa, a Santana, vai me largar para morar nos Estados Unidos com outro homem. Só sendo mesmo. Santana é a mulher mais séria que conheci em toda minha vida. Nem a finada minha mãe é tão séria como minha esposa. Ir embora pro estrangeiro? Onde já se viu um negócio desse?
- Coitado. Mal sabe esse daí que os meninos da rua colocaram um par de chifres na porta dele hoje de manhã, depois que viram a Santana sair toda arrumada, de mala e cuia em um carrão que encostou na casa dela hoje cedo.  – comentou uma senhora que estava na fila. Essa Irmã Isaura não erra mesmo – completou a distinta senhora. E ainda tem o velho ditado: “O corno é o último a saber”.
As amigas, que já estavam quase se deixando vencer pelo cansaço, entreolharam-se e se restava alguma dúvida da credibilidade da vidente, ela acabara de ir embora com o caso do marido traído. O que seriam duas horas a mais em pé, diante da certeza do que iria acontecer no futuro?
Mais duas horas e chegou a vez. Aline se aprontou toda pra ser a primeira das três.
- Pode entrar! – chamou a Irmã Isaura.
Longos 20 minutos se passaram. Magda e Clarisse olhavam-se e tentavam adivinhar o que estava se passando lá dentro. “Qual será o futuro dessa sem-futuro?”, pensavam.
A porta de saída da tenda era por trás, ou seja, a que entrasse logo após Aline, não poderia conversar com amiga para saber o que o futuro reservava.
- Você vai na frente. – disse Magda.
- Eu não. Vai você! – retrucou Clarisse.
- Por que eu? – questionou Magda.
- E por que eu?
- Clarisse, você acabou de se divorciar. Mais do que eu, quer saber o que o futuro te reserva. Eu encontrei o Arnaldo há pouco tempo. Estamos felizes juntos, mesmo que a Irmã Isaura diga que meu futuro com ele não será bom, eu não vou chegar a casa e terminar tudo. Se o futuro é pra ser assim, com suas angústias e decepções, que seja, pois eu sei que vou aprender muito. E você? O que o futuro guarda pra ti?
- Pode entrar! – gritou a Irmã Isaura.
- Tem razão, vou saber agora! – Clarisse riu para Magda, deu um beijo na amiga e entrou.
Meia hora depois, Clarisse sai e vê Magda e Aline conversando em um banco da praça.
- O que você fazendo aqui? E o teu futuro? – perguntou Clarisse à Magda.
- O meu futuro eu mesma escreverei.
- Tudo bem, amiga. E por que a Aline está assim? – Clarisse observava o olhar perdido e um leve sorriso no rosto de Aline.
- É o que estou tentando descobrir. Conta aí, Aline! O que houve lá dentro? – pediu Magda.
- A Irmã Isaura me falou muita coisa sobre estudo, família, trabalho e, é claro, amor. A que me deixou mais aliviada foi quando ela disse que não tinha jogado pedra alguma na cruz. Nesta hora ela olhou bem pra mim e disse: “O homem da sua vida está lá fora. Saia imediatamente, sente em um banco que fica debaixo de um pé de jambo e observe a rua na direção da lua cheia. Ele vai surgir na sua frente e te fazer uma pergunta que você jamais esperaria, mas que saberá exatamente a resposta”. – contou Aline.
- Que coisa mais doida, mulher de Deus. E você vai ficar parada aí esperando esse tal homem? – perguntou Magda.
- Mas é claro. Vou deixar passar uma oportunidade dessa?
- Ai, amiga, você vai me desculpar, mas estou muito cansada e não estou disposta a esperar esse tal príncipe encantado neste fim de mundo não. Até porque não gostei muito do que essa tal Isaura me contou não. – disse Clarisse.
- Eu também não vou fica. Até porque o Arnaldo está ligando e pedindo pra eu voltar. Boa sorte tá?
- Tudo bem, vou aguardar mais um pouco. Quero saber se a Irmã Isaura realmente acertou o meu futuro.
Já era tarde da noite e Aline lá, olhando para a rua na direção da lua esperando o tal homem de sua vida. Estava cansada das horas que ficara em pé e agora da longa espera por alguém que nem mesmo ela sabia se ia chegar.
- Será que a Irmã Isaura errou dessa vez?  - baixou a cabeça e começou a pensar sobre os erros que cometera no passado e sobre as incertezas do futuro. Foi quando ouviu passos de alguém se aproximando, levantou a cabeça e a luz forte vinda do poste impediu que ela visse o rosto do homem que se ajoelhou aos pés dela.
- Estive com a Irmã Isaura esta tarde e ela me disse que eu deveria vir aqui à noite porque uma reviravolta ia acontecer na minha vida. Minha esposa iria me abandonar e que eu encontraria uma mulher no banco da praça a quem eu deveria perguntar: é você?
Aline levantou o rosto daquele homem, olhou profundamente em seus olhos e respondeu:
- Sim, sou eu!
Beijaram-se longamente tendo a lua como testemunha, enquanto no meio da praça irmã Isaura terminava mais um dia de trabalho e atravessava a praça enquanto dizia:
- O ontem é passado, o amanhã é um mistério e o hoje é uma dádiva, por isso se chama presente. Mas do mistério, eu entendo!

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Será?

As amigas mais próximas de Amanda já a tinham alertado para o jeito um tanto quando afeminado de Fernando.

- Amiga, você não acha que o Fernando é assim... meio...

- Assim como, Alice? – perguntou a desconfiada Amanda.

- O povo está dizendo que ele não gosta muito de...

- Não gosta do que? Fala logo!

- Amanda, ele faz pilates! Você conhece algum homem que faça pilates?

- Claro que conheço. Vários. Tem o... Como é mesmo o nome dele?

- Tá vendo? Nem mesmo você sabe. Mas se eu te perguntar quem do teu setor vai jogar futebol na causa do Claúdio as quartas à noite você escala o time todinho.

- Mas é claro. Eu que tenho de ficar até mais tarde porque, quando são cinco horas, eles já estão todos de meião e chuteiras, só esperado o horário de bater o ponto.

- Pois é exatamente aí que eu queria chegar. Homem gosta mesmo é de futebol, tomar cerveja, sair com os amigos pra falar ou fazer sacanagem e com o Fernando não é assim.

- Como não? Agora mesmo, enquanto eu estou aqui contigo, ele está com os amigos dele do curso de Sensitivação Oriental.

- Curso de que?

- Sensitivação Oriental. É uma nova modalidade de autoajuda em que as pessoas contam suas experiências e angústias. Diz ele que lá as pessoas costumam se abrir para novas experiências e que tem aprendido muito com isso.

- Sei. Amanda, abre este teu olho. E a amizade dele com aquele outro lá, o tal de Renato.

- O que é que tem? São amigos, ora. Assim como eu e você.

- Amiga, ele chama o Fernando de “Fê”.

- Carinho, ué?

- E o Fernando ainda completa chamando o outro lá de “Rê”. Me poupe né?

- Ah, Alice, quer saber. Você é muito mal amada e fica com essas histórias de implicância com o Fernando.

- Vou te dar mais uma prova: o que ele gosta de ouvir? Que música ele veio ouvindo no carro quando te deixou aqui? Aposto que foi Lady Gaga.

- Ai, amiga, eu também gosto de Lady Gaga.

- Você, o “Fê” e todos os meus amigos que gostam tanto de homem quanto eu.

- Sabe de uma coisa? Não quero mais conversa com você!

- Tudo bem. Só estou te dizendo o que ninguém teve coragem. Todo mundo fica falando pelas costas. E eu tive coragem de te vir aqui e te dizer. Amiga, se é que você ainda vai continuar minha amiga, observa mais as atitudes dele. Faz um teste com ele. É isso! Faz um teste!

- Que tipo de teste?

- Pede para ele comer uma manga.

- Uma manga?

- Se ele for macho mesmo, vai comer sem se preocupar em se lambuzar todo e ainda vai tentar ficar tirando os fiapos dos dentes com as unhas.

- E onde é que vou arranjar manga uma época dessa?

- Olha só! Tá querendo fazer né? Até você desconfia.

- Chega, vamos parar com essa conversa. Até outro dia!

Amanda saiu sem se despedir de Alice. Apesar de estar querendo sentir ódio da amiga, ela ligou o desconfiômetro.

- Será, hein? – pensou.

Na volta pra casa ainda passou no supermercado. Entre uma prateleira e outra resolveu ir até o setor de frutas.

- Moço, onde eu encontro manga? – perguntou ao atendente.

- Senhora, nessa época é difícil encontrar. Só na Ceasa.

Não, não! Teste da manga, não. E ficou pensando em algumas situações que poderiam tirar a prova dos nove.

- Amor, vamos dar uma volta hoje? Só nós dois! Estou querendo uma noite bem especial com você – era o convite para o grande dia.

- Claro, baby! O Rê tá terminando um relatório aqui e hoje não tenho aula do grupo de Sensitivação, pois o mestre tá dodói. Oito horas tá bom pra você?

- Tá ótimo. Mas oito horas mesmo, tá? Porque você demora muito tempo tomando banho e acaba se atrasando.

- Demoro porque fico passando meus cremes e me preparando pra você, honey.

- Tá certo, então. Oito horas! Beijos e até mais!

- Bye, Amandita!

Enquanto se arrumava, Amanda pensava: “Rê”, “dodói”, “baby”, “bye”, “Sensitivação Oriental”. Mas será?

Fernando chegou quase nove horas.

- Vamos, baby! Me desculpa, o Rê demorou demais a entregar o relatório e não posso sair com você todo sujo e fedorento.

- Tá bom! Vamos lá!

Amanda prestava atenção em cada gesto: a mão arrumando a sobrancelha, a forma de ajeitar o cabelo como se quisesse jogá-lo pra trás da orelha (como fazem as mulheres), como sentava, andava, tudo. E pensava...

- Meu Deus, será?

No restaurante, sentados, um diante do outro, Amanda olhava fixamente para o seu amado.

- Honey, você está bem? Tô te achando tão pra baixo hoje. Me perdoe pelo atraso. Sinto muito mesmo.

- Tudo bem. Chama o garçom que quero beber alguma coisa.

- Pois não, o que o senhor deseja? – indagou o garçom.

- Me traga uma caipifruta de kiwi, com pouco gelo e adoçante. – respondeu Fernando enquanto era observado com a cara de espanto e decepção de Amanda.

- E a senhora?

- Uma cerveja, mas tem que ser bem gelada. – suspirou e questionou pela última vez: “Será?”

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Alma Gêmea

Existe amor à primeira vista? Nunca acreditei nisso. Onde já se viu duas pessoas se conhecerem no meio de uma tempestade, em pleno Centro da cidade, seus olhares se cruzarem e dali, sem nenhuma explicação lógica, descobrirem que foram feitos um para o outro? Estaria eu sendo racional demais? O jeito foi procurar ouvir uma segunda opinião. E nada como uma sexta-feira, uma boa companhia, um lugar agradável e uma boa bebida para as ideias fluírem melhor.
- Você acredita em alma gêmea? – perguntei à Vanda, única amiga que topou discutir sobre relacionamentos comigo.
- Como assim, alma gêmea?
- Sim alma gêmea. Aquela história das metades da laranja que o Fábio Júnior canta na música lá...
- Olha, eu nunca pensei para parar nisso.
- Acredita ou não? A pergunta foi objetiva.
- Eu acho que sim.
- Por quê? Você acha mesmo que duas pessoas podem nascer mesmo uma pra outra para o resto da vida?
- Claro. Por que não?
- Eu acho que isso é coisa de conto de fadas. Eu sou o príncipe encantando – se bem que estou mais para sapo – e de repente cruzo com você no meio de uma multidão e dali descobrimos que nascemos um para o outro. Ah, para com isso. Na convivência você acaba descobrindo que a outra metade da laranja pode estar podre e aí contamina tudo.
- Credo, deixa de ser pessimista. Você fala assim porque ainda não achou a metade da sua laranja.
- E nem quero. Pra mim laranja é bom mesmo com outra fruta. Suco de laranja com cenoura, ou beterraba... É o diferente que me atrai.  Não esta história de alma gêmea. Gêmeo é igual e já imaginou se todo mundo fosse igual a mim?
- Deus não seria tão ruim assim com a humanidade...
- Realmente... Um mundo feito de iguais não seria bom. O que gosto mesmo é de experimentar novos sabores. A outra metade da minha laranja eu dispenso.
- Vendo por este lado, acho complicado mesmo você acreditar em alma gêmea, as tais duas metades da laranja. Quer saber? Muda o cantor e vai viver tua vida do jeito que você quer.
- Tens razão. Essa conversa toda me deu uma sede... Vamos tomar alguma coisa? Garçom, por favor.
- Pois não, senhor.
- Um suco de laranja, por favor.
- Com gelo?
- Não, com cenoura. Fica mais gostoso.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Expectativas e perspectivas

Chegar próximo aos 30 anos e não ser casado ou não estar em um “relacionamento sério” significa algo desesperador para muita gente, principalmente para as mulheres.  Margarida, Rosa e Hortência - mais que nomes de flores - eram amigas há muito tempo e duas delas estavam com planos de casar-se e resolveram fazer um “happy-hour” para poder compartilhar angústias ou desejos dos seus relacionamentos.

Enquanto tomava um suco de morango – com adoçante para “caber no vestido -, Margarida  falava das expectativas para o seu casamento. Rosa ainda arriscou um “será que eu bebo alguma coisa”, mas achou melhor não pois Murilo, seu namorado, poderia não gostar. Já Hortência foi logo pedindo uma cerveja. O garçom até quis saber qual, mas ela foi direta: “a mais gelada”.

- Estamos planejando a festa há muito tempo. Pena que a igreja onde nós queremos a celebração só tenha vaga para fevereiro do ano que vem. Mas o que é que tem né, amiga? Eu e o Fernando estamos juntos há sete anos e não vão ser alguns meses a mais que irão atrapalhar o nosso relacionamento. – comentava a empolgada Margarida.
- Sete anos? Quase dois mandatos de presidente. Toma cuidado, viu? Já passou por uma reeleição. Acho melhor você dar um golpe igual aquele da Venezuela – que determinou que o candidato pode concorrer quantas vezes quiser -  senão você não mais segura este homem.
- Credo Hortência. Deixa de ser amarga. Também não é assim. A gente precisa conhecer bem a pessoa com a qual vamos nos casar. – retrucou Rosa.
- E sete anos não é suficiente? E ainda esperar mais um ano por causa da agenda de uma igreja? Me poupe, né? Fala ali com o Padre Chico, da capelinha do nosso bairro, e casa lá mesmo. – ponderou Hortência.
- E a festa? Reunir a família, os amigos...
- Tudo convenção social e religiosa. As mulheres gastam a maior grana pra poder comprar vestido que provavelmente só vão usar uma vez, passam horas sendo torturadas em um salão de beleza pra se mostrar durante algumas horas para as  outras amigas (enquanto disse isso fez um sinal com dedos médio e indicador das duas mãos indicando as aspas) que vão dizer que você está muito bonita e no final da festa saem falando mal de ti.
- Aff, não é assim também não. – afirmou, Margarida.
- Claro que é! Isto sem falar dos coitados dos noivos que passam horas fazendo fotografias, das mais variadas posições e com algumas pessoas com as quais ele nunca mais vai conviver na vida. Ou você acha que tua mãe não vai querer incluir na lista aquela amiga chata dela que você odeia? – argumentava Rosa.
- É, você tem razão. Minha mãe pediu pra convidar aquela chata da D. Conceição, mas foi só ela. Te juro!
- Quer saber? Tudo convenção. – continuava firme em seus ideais, a “amarga” Hortência.
Um silêncio pairou sobre a mesa.
- Mas pode ficar tranquila que vou pra festa, beberei todas e ainda farei uma foto com você.  – comentou Hortência para quebrar um pouco o clima pesado. E você, Rosa? Quando o Murilo vai deixar de te enrolar e te pedir em casamento?
- O Murilo está estudando para concurso. Quando ele passar, espero que ele peça para casar comigo.
- Realmente, com o concurso vem a estabilidade, vocês poderão comprar um bom lugar para morar e ser felizes pra sempre. – falou a encantada Margarida.
- “Felizes para sempre”?  Amiga, isto é vida real, não é conto de fadas. Planejamento, estabilidade, habitação... onde fica o amor nessa história? – perguntou Hortência.
- Como assim onde fica o amor? Acha que se a gente não se amasse, não estaríamos namorando?
- Acho que se vocês se amassem de verdade já estariam casados, morando juntinhos mesmo que fosse num puxadinho na casa da mãe dele. Quer saber? Vocês planejam demais. Burocratizam o amor como se um relacionamento fosse uma repartição pública. Ele passou pelo setor de protocolo pra te pedir em namoro? Apresentou os pareceres e as condições necessárias para vocês ficarem juntos? Se sim, então passa daqui a dois anos que eu caso contigo. Gente, o amor não é burocrático desse jeito.
 - Você tá muito azeda, Hortência. – criticou Rosa.
- Azeda e encalhada né? – completou Margarida com uma risadinha de canto de boca.
- Não estou azeda, estou falando a verdade. E outra: quem disse que estou encalhada?
- Não! – falaram juntas as amigas.
- E você não conta nada pra gente? Como assim? Quem é? É gato?
- Lembra aquela  convenção que fui no Paraná no mês passado? Conheci um cara maravilhoso lá. Bonito, inteligente, isto sem falar de outros atributos e habilidades. – comentava Hortência.
- Ah, mas vocês estão namorando à distância? Isto não é ruim? Não sente muita falta dele? – indagou Rosa.
- E quem disse que estamos namorando à distância.  Depois de uma noite maravilhosa que tivemos lá mesmo durante o período convenção, ele pediu demissão e mudou-se pra cá. Tá morando comigo lá no apartamento. Hoje mesmo quando acordei, tinha feito um café da manhã pra mim e já saiu pra procurar emprego.
- Como assim? Você conheceu o cara no mês passado e já estão morando juntos? – questionava Margarida. Você é louca! – sentenciou.
- É simples. A gente se gosta. Não preciso burocratizar o amor. Ele não passou por todos os setores, apenas falou com a pessoa certa. Assim é o amor, simples, sem burocracia.
- Mas, mas...- tentava argumentar a boquiaberta Rosa.
- Sem ”mas”. A gente se gosta, se deu bem e pronto. Não foi necessário sete anos de relacionamento, ou um concurso público, bastou um beijo e uma certeza que queríamos ficar juntos. Precisa de mais?
- Não!
- Por falar nele, olha lá quem veio me pegar. Fiz questão que ele viesse para eu poder apresentá-lo  a vocês. Acho que hoje à noite tem. – falou enquanto soltava uma gostosa gargalhada.
- Nossa! – Rosa estava boquiaberta.
- Realmente... – disse Margarida.
- Amor, estas são minhas amigas que te falei: Rosa e Margarida. Este é o Beto. O nome dele mesmo é Paulo Roberto, mas pra mim é Beto.  Foi ótimo o nosso encontro. Espero que nos vejamos mais vezes pra falarmos mais de casamento, relacionamentos, planos... Beijos!
Novo silêncio na mesa, que só foi quebrado com a chegada do garçom.
- As senhoras desejam mais alguma coisa?
- Sim, por favor. Uma cerveja. – disse Rosa.
- Alguma preferência? – questionou o garçom
- A mais gelada. – respondeu Margarida.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

O que mais te atrai?

Era sexta-feira. A turma resolve dar uma esticadinha até o boteco da esquina para continuar uma conversa importantíssima que não poderia esperar até segunda-feira. Todos sentados, mulheres e namoradas telefonando para saber daquela “reunião com o chefe de última hora sem hora para acabar” e então os amigos resolvem discutir uma importante questão para o futuro da humanidade.
- O que mais te atrai em uma mulher?  - Carlos Alberto fez a pergunta apontando diretamente para mim.
- Como?
- Simples. Qual a parte do corpo que mais te atrai em uma mulher? Sem essa de o que vale é a beleza interior porque aqui ninguém tem aparelho de tomografia não. Olhando só para a embalagem, sem saber o conteúdo. O que mais te atrai?
- A bunda, claro! – declarou o seu voto o apressado Diogo. É a preferência nacional, não tem como não olhar. A mulher pode até não ter o rosto mais bonito do mundo, mas se tiver uma bela bunda logo chama a atenção.
- Tem razão.  – concordou Carlos Alberto, enquanto olhava a região glútea de uma moça que passava ao lado da mesa deles.
- Pois pra mim são os seios. – respondeu sem titubear o Márcio. Chega a ser antropológica a relação dos homens com os seios de uma mulher. Quando a gente nasce vai logo os procurando desesperadamente porque sabemos que ali o negócio é bom.
- Mas qualquer seio? – Questionou Carlos Alberto.
- A discussão foi sobre a parte e não a forma. Você não perguntou se era qualquer bunda.
- Tem razão. – afirmou Carlos Alberto enquanto observava o decote de uma mulher que sentava quase em frente a ele.
- Pra mim o olhar diz tudo. – escolheu André.
- O olhar não é uma parte do corpo e sim um gesto. – questionou Carlos Alberto.
- Mas é que o olhar envolve não somente o olho, entende? É o conjunto: olho, sobrancelha, cílios...
- Escolha uma parte!
- Poxa, Carlos Alberto não vamos radicalizar também né? Seios são dois e bunda não é só a metade e sim o conjunto. Dá um desconto! – disse Márcio defendendo o amigo.
- Estás certo. – afirmou mais uma vez Carlos Alberto, enquanto tentava entender o olhar da garota da mesa ao lado.  E você? – era a minha vez.
- Eu o quê?
- Qual a parte do corpo que mais te atrai em uma mulher?
- Preciso responder mesmo?
- Claro. Todos nós já respondemos!
- Você ainda não, Carlos Alberto.
- Responderei por último. Vamos lá. Diga: o que mais te atrai em uma mulher?
- Tá bom. A nuca!
- A nuca? – espantou-se Márcio!
- Como assim a nuca?  - indagou Diogo.
- Tem tanta parte melhor: pernas, cinturas, até o umbigo é melhor que a nuca. – questionou André.
- Posso explicar?
- Deve. – responderam uníssonos.
- Não é bem a nuca. Na verdade é um gesto. Sabe quando está quente e a mulher enrola o cabelo no topo da cabeça e deixa a nuca à mostra? Pois é. É aquilo que mais me atrai em uma mulher. Aqueles poucos cabelos que teimam em não ficar no penteado improvisado -  geralmente fixo por uma caneta esferográfica – e que escorrem pela nuca são para mim a parte mais atraente. É quando a mulher, em meio a uma situação qualquer, mostra realmente quem ela é. Afinal, não é qualquer mulher que enrola o cabelo e assume que o ambiente está quente e que quer ficar mais à vontade. E mais, muitas vezes a nuca traz consigo uma tatuagem que revela ainda mais a personalidade daquela mulher. Já vi de tudo: fadas, rosas, estrelas, nomes (muitas vezes de marido ou filhos) e numa delas tinha até uma frase bem sugestiva: “Beija-me”.
Neste momento percebo que todos observavam atentamente a minha filosofia sobre como uma nuca feminina era capaz de tantos encantos. Até os copos de cerveja tinham sido esquecidos sobre a mesa.
- Agora é sua vez, Carlos Alberto. O que mais te atrai em uma mulher?
- Espera um minuto que essa daí da frente tá enrolando o cabelo. Olha só, olha só... Surgiu uma estrela! A nuca, definitivamente a nuca.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Turbulências

Nunca gostei muito de viajar, apesar de adorar conhecer lugares e, principalmente, gente nova. O que me incomoda é a viagem. O avião é tenso, o ônibus é cansativo e o carro é entediante. Para mim, uma das maiores invenções da humanidade seria a máquina de teletransporte: apertar um botão aqui e chegar, num piscar de olhos, no outro lugar. Mas enquanto isto não acontece, continuamos nos meios de transporte convencionais.
Toda vez que viajo penso logo em quem vai sentar ao meu lado. Será uma moça bonita (esta é sempre a minha primeira opção)? Um cara que dorme a viagem inteira e nem sequer dá um “boa tarde”? Uma mulher com bebê de colo? Uma pessoa acima do peso que toma todo o assento dela e uma parte significativa (geralmente o apoio do braço) do meu?
O momento de sentar e esperar quem vai ficar ao meu lado é muitas vezes mais tenso que  uma decolagem no meio de um temporal.
- 21B?
A pessoa tem escrito na passagem, tá registrado acima do assento e ainda pergunta?
- Assento 21B?
Putz e ainda insiste. Levantei a cabeça e fiquei mudo. Mas não de raiva, era contemplação. Uma jovem linda, ruiva, cabelos soltos, estilo intelectual e parecida com uma executiva (percebia-se pela roupa que usava). Perfeita (tomara que não tenha pensado alto).
- Desculpa insistir, mas este é um assento 21B?
- Humrum  (como é que se responde desse jeito?).
- Obrigada.
E agora? A mulher perfeita estava ali do meu lado. Como agir? Como começar uma conversa em um avião? Eu estava preparado psicologicamente pra um gordo e não para aquela situação.  Instruções dadas, balinhas de caramelo distribuídas, “atenção tripulação decolagem autorizada” e ...
- Posso segurar a tua mão?
- Ah? (Como é que eu não desenvolvo uma conversa?)
- É que tenho medo da decolagem.
- Claro, sem problema. Eu também estou um pouco tenso.
- É. Tem medo de viajar de avião?
- Não. Estava tenso por outro motivo.
- Ai meu Deus!
- Que foi?
- Esta é a pior parte: quando o avião acelera e se prepara pra deixar o solo.
- Fique tranquila. (E dei uma apertadinha mais forte na mão dela para ela sentir segurança).
Ela cerrou os olhos, apertou bem forte a minha mão e decolamos.
- Moça, já pode abrir os olhos.
- Por quê? A gente já chegou?
- Não. A gente tá longe ainda.
- Você se incomoda de eu ficar segurando a tua mão? Sinto-me mais segura. Sei que não adianta nada na prática, pois se o avião estiver com algum problema, você não vai poder fazer nada, mas me sinto melhor assim.
- Sem problema. Tem certeza que quer só segurar a mão?
- Como assim?
- Encosta a cabeça no meu ombro e tenta dormir um pouco.
- Não, não!
Será que tinha sido atirado demais?
- Tá bom, então fiquemos só assim.
E conversamos muito sobre nossas vidas, medos, angústias, sonhos - só fomos interrompidos pela aeromoça que insistia em oferecer pão gelado com mortadela fria e refrigerante quente -  e  ela sempre segurando a minha mão. O voo durou duas horas.
- Pra mim, pousar é pior que decolar.
- Não se preocupe. Pode continuar segurando a minha mão.
- Obrigada, você é muito gentil. – falou soltando um lindo sorriso pra mim.
Mão apertada, avião em solo e era hora de arriscar um voo mais alto naquela relação. Foi quando percebi que o céu para mim não era tão de brigadeiro. Quando ela soltou a minha mão, vi uma aliança em seu dedo.
- Muito obrigada mesmo. Foi um dos voos mais tranquilos que já fiz na vida.
- Pra mim também. Pena que a vida continue ainda cheia de turbulências.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Pura amizade

A amizade entre homens e mulheres sempre foi algo muito questionado. Pelas mulheres, é claro.
- A Margarida é realmente só sua amiga ou tem algo mais?
- Como assim “algo mais”? Amizade pra mim é tudo
- Sei. Rum. Vai me dizer que você nunca pensou em dar um cheiro a mais na Margarida?
- Não estou entendendo aonde você está querendo chegar com este questionamento.
- Tá, Paulo Ernesto! Eu quero saber se ela é sua amiga ou mais que isto.
- Defina o “mais que isto”, porque, pra mim, mais que amiga só namorada e até onde eu sei este cargo é ocupado por você.
- Quero saber se já rolou algo entre você e ela, é isso.
- Não.
- Não, o quê Paulo Ernesto? Não rolou ou não vai me contar?
- Olha, isso não tem nada a ver.
- Como não tem nada a ver? Eu sou tua namorada e exijo saber.
- Como assim exige? Pois tá bom, não rolou nada. É pura amizade.
- Defina pura amizade.
- Definir pura amizade? Como assim? Olha, acho melhor a gente encerrar esta conversa por aqui.
- Pois eu não acho. Pura amizade é diferente de amizade pura. Esta é sem maldade, já aquela...
- Você tá insinuando que a Margarida e eu já tivemos um caso, é isso?
- Ou tiveram ou ainda tem.
- Como assim ainda tem?
- Então tiveram?
- Eduarda, para com isso agora. Não quero brigar com você esta noite.
- Ah, não? E por quê?
- Estamos com visita na sala. Não seria bacana a gente vir pegar um vinho na cozinha e voltar pra sala de cara fechada.
- Eu não ficarei de cara fechada. Voltarei alegre, linda e sorridente.
- Quer saber? Não vou responder e vou voltar pra sala com o vinho pra visita que já está esperando a gente a um bom tempo.
- E vou ficar sem resposta?
- Tchau. Vou pra sala.
E saiu com uma garrafa de vinho e duas taças.
- Então, está servida? – perguntou Paulo Ernesto.
- Oh, Paulinho. Você trouxe justamente o vinho que mais gosto. Lembra que a gente tomou uma garrafa todinha naquele réveillon que passamos na praia?
- Claro que lembro, Margarida. Jamais esqueci aquele réveillon.
Enquanto isso, Eduarda estava na cozinha ouvindo a conversa do namorado com a amiga e dizendo baixinho:
- Pura amizade...

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Sintonia

Hoje, dia do amigo, marco um almoço com Elton Viana. Mando pelo Facebook: “12:30 lá naquele restaurante mesmo, né?”. “Isso”, ele responde. Tudo acertado! Chego na hora marcada e não vejo o baixinho. “Normal. O trânsito de Fortaleza nunca é fácil!”. Às 12:40, ligo para o celular dele. Chama, chama e ninguém atende. Espero mais dez minutos e faço outra tentativa. Novamente, nada.

“Esse anão filho da mãe! Deve tá perdido e ainda não atende a porra do celular!!”. Fico logo puto e vou almoçar. Encho o prato mais que o normal pra ainda estar comendo quando a criatura chegar. “R$ 29,12?!?! Eu bati em algum garçom, minha senhora?!”. A mulher sorri achando que eu estava brincando. Enquanto ela tirava a notinha, eu procurava quais daquelas folhas de alface tinha chumbo. “Terei que deixar um rim aqui e ainda vou almoçar sozinho. Elton, viado!”.

Comi até as espinhas do peixe. Terminei o almoço e o substrato de gente não teve a ombridade de ligar ou mandar uma mensagem para dizer o que aconteceu. “Estranho. Ele não é disso! Será que o chefe dele chamou de última hora? Mas nem uma mensagem? Pensando bem, ele disse que já tava saindo.

Será que aconteceu alguma coisa no caminho? Mas nem um telefonema? E se foi grave? E se ele sofreu um acidente no caminho? E se um carro desgovernado bateu no dele e ele ficou inconsciente e sangrando no meio da rua? E se tentaram assaltá-lo, ele reagiu e o levou uns tiros? E se ele morreu?!

PQP! O cara morreu em um acidente de carro no caminho do restaurante! Pronto, foi isso!! Caralho, será que eles liberam o corpo hoje?! Depende se foi acidente ou latrocínio. Porra! O cara acabou de assumir um relacionamento sério no Facebook e já morreu! A vida é foda mesmo. Além disso, deixou um filho.

PQP!!! O João vai crescer sem pai! E era um bom pai ainda por cima. O corpo deve ser liberado ainda neste fim de semana. Vou ter que desmarcar a casa de praia. Porra, mas é o Elton! Não vou deixar de ir ao enterro dele. 'Pois é, eu tava esperando ele pra almoçar e fiquei sabendo depois. Muito triste isso!', vou falar pra pessoas no velório.”

Enquanto pensava tudo isso e na roupa que eu iria usar no velório (uma camiseta preta de botão bem legal que eu tenho), o meu celular toca. Número desconhecido. “É agora. Alguém ligando pra confirmar”, imaginei. No outro lado, só escuto um “Cadê tu, Cretino?!”.

Eu tô aqui voltando do almoço sozinho. Por que você não veio, filho da mãe?!

Eu vim. Tô aqui no japonês!

Que japonês?! A gente sempre almoça no Nosso Fogão.

Nããão! É sempre no japonês. Tá todo mundo aqui.

Pois vai se lascar!!!

Sintonia entre amigos é isso aí, só que ao contrário! :P

Texto escrito pelo meu grande amigo Antino Cretino!

terça-feira, 10 de julho de 2012

Amores imperfeitos

Deve existir um item no 40º volume do manual “Como entender a cabeça do ser humano” que está escrito: quando todas as culpas do mundo não couberem mais em uma pessoa, vire a carga para si. Para não parecer confuso aqui vai o exemplo.

No auge da discussão, ela já usou praticamente todo o repertório de palavrões do mundo contra ele, que por incrível por pareça conseguiu rebater– com provas – todas as acusações, aí vem a frase clássica:

- Sabe o que é? O problema não é você, sou eu!

Nessa hora dá vontade de dizer.

- Eu sabia!

Ou então:

- Se sabia disso, por que não me avisou antes que não tinha inventado tanta desculpa esfarradapa?

Mas com o Alfredo aquilo não podia acontecer. Ele era perfeito demais. Era do tipo: “Genro que toda sogra sonha em ter”, “Pai exemplar”, “Marido fiel e companheiro” (Antes do Alfredo eu realmente não acreditava que ele existisse), enfim todas as qualidades que um homem poderia ter e nenhum defeitozinho de fabricação. Mas isso não foi suficiente para a Doralice chegar pra ele e dizer:

- Não dá mais, Alfredo!

- O que, meu amor?

- Nosso casamento.

- Mas o que aconteceu? O que eu fiz de errado que te deixou desse jeito?

- É exatamente isso que me incomoda: você é certinho demais.

- Então estou errado por ser certinho demais, é isso?

- É! É isso. Fico sufocada. A gente não briga. Você me entende sempre mesmo quando estou de TPM e mando você ir dormir no sofá duro da sala. Ou quando a mamãe me liga querendo desabafar sobre os problemas dela. E com as crianças então? Aí é que não vejo você ter problemas mesmo. Vejo os maridos das minhas amigas que nem sabem trocar uma fralda e você...

- Eu o quê? Não troquei direito as fraldas do Pedrinho? Vazou foi?

- Não é isso! Já disse: você é perfeito demais. Nem a fralda vaza, nem o Pedrinho cai, o Rafael te acha um super-pai porque você não teve vergonha alguma de imitar o Tchutchucão na escola e até com a Maria Clara, que já é uma adolescente, você jamais teve sequer uma discussão....

- E isso é ruim? Se for o caso eu mudo!

- É ruim, mas não quero que você mude. É ruim pra mim e não pra todo mundo. Entende?

- Sinceramente? Não!
- Alfredo, por exemplo, onde estão teus amigos hoje?

- Toda quarta-feira tem um joguinho de futebol depois do expediente. Acredito que a turma toda esteja lá. Por quê?

- Pois é, por quê? Por que quando eu chego em casa em uma quarta-feira à noite, as crianças já têm tomado banho, o jantar – que você mesmo fez - já está feito e servido e até o meu banho com sais já está pronto? Por quê? Isso tudo me sufoca, Alfredo. Quero espaço, discutir com você e depois a gente reatar fazendo amor loucamente, mas a gente não briga. Você é muito perfeito para uma pessoa cheia de imperfeições.

- Mas, meu bem. Eu gosto de estar em casa e cuidar de você e das crianças.

- Chega! Para!

- Pois me diz o que você quer?

- Eu quero ter ciúmes de ti, ter raiva de você, quero que você grite comigo às vezes, diga que minha mãe é insuportável...

- Epa! Não admito que você fale mal da tua D. Socorrinha. Não na minha frente!

- Tá vendo? É isso Alfredo! Chega não dá mais!

- E o que você quer então?

- Quero que saia de casa!

- Tá bom!

- Como assim “tá bom”? Tá ruim, isso sim!

- Você quer discutir comigo, é isso?

- É isso aí! Chegou onde a gente queria.

- A gente não, né? Você. Não há motivos para discutir. E mais, você deve ter tido um dia difícil e está querendo ficar um pouco só. Eu entendo.

- Entende é?

- Claro. Todos nós temos dias assim...

- Você parece que não tem dias ruins. Sabe o que é, Alfredo? O problema não é você, sou eu!

- Você? Não. Doralice você não tem defeitos, pelo menos não aos meus olhos.

- Ahhhhh! Para! Chega! Sai agora!

- Deixa pelo menos...

- Agora!

E Alfredo saiu de casa tentando entender porque Doralice chegara tão estressada em casa. Teria feito algo errado? O jantar que ele colocara na mesa não era o que ela gostava? Mas tinham duas opções.... Será que uma das crianças tinha reclamado dele? Impossível. Era tudo perfeito demais... Doralice encontrara a imperfeição na perfeição.

domingo, 1 de julho de 2012

Jogada desleal

Há dias Augusto César andava inconsolável. E só há duas coisas que abalam tanto emocionalmente os homens. Uma delas é quando seu time perde o campeonato que não vence há anos com um gol improvável aos 45 minutos do segundo tempo. A outra, claro, é uma desilusão amorosa.

Os últimos dias não foram lá muito felizes pro nosso querido amigo. Nosso time há anos não era campeão do grande campeonato de futebol do bairro do Limoeiro. Pra ele, que jogava como zagueiro, perder aquela competição foi pior que a morte de um parente próximo. Se isto acontecesse, boas recordações permaneceriam. Mas daquele jogo, a lembrança foi a mais amarga possível.

Final de jogo, nada de gols e a certeza de que na cobrança de pênaltis o nosso goleiro Zé do Frango (que tinha esse nome não por ser frangueiro, mas por ter um bar que vendia galeto assado) era bem melhor que o “Baixim” do time adversário. 

Aí veio o grande momento: bola levantada na nossa área. O Augusto César, que era zagueiro e conhecido como Cesão, grita:

- Deixa comigo!

Só que ao invés de jogar a bola pra fora da área, ele rebateu da dentro da própria meta. Gol do adversário! Pior que a decepção foi o atacante do time adversário que usava óculos falar bem alto.
- Obrigado, Cesão! Pena que pra vocês a fila não anda.

Nosso amigo estava tão transtornado com o que fizera que nem reação teve pra dar uns sopapos no “Ceguim”. Mas o pior ainda estava por vir.

Futebol de várzea ou acaba em confusão ou em churrasco. Pra levantar a moral do nosso estimado zagueiro, fomos pra casa do Paulinho das Vassouras (pelo nome dá até pra saber com o que ele trabalha), nosso técnico.  Carne pra cá, cervejinha pra lá, todo mundo evitando falar do maldito gol, até que a mulher do Paulinho veio da cozinha com uma amiga que fez com que o Cesão tirasse aquela cara de choro do rosto e pela primeira vez esboçasse um sorriso.

- O que é aquilo, meu irmão?

- Ah, rapaz! É costelinha de porco!

- Não, cara. Me refiro a quem está trazendo a costelinha de porco.

- Uh, rapaz! Que coisa gostosa!

- Peraí, eu vi primeiro.

- Tô falando da costelinha, Cesão. A mulher é a Jandira, que mora logo ali na rua de trás.

Ah, a Jandira! Ficava servindo e provocando o Cesão durante todo o churrasco. Mas zagueiro bom mesmo não aceita provocação e ele não demorou a chegar junto.

- Oi, tudo bem?

- Olá, você é aquele que no jogo de agora a pouco fez o gol do campeonato, né?

- Sim, fui eu mesmo, por quê? – falou Cesão já com o tom de voz alterado, afinal ninguém tinha tido coragem de tocar no assunto.

- Porque eu fiquei com uma peninha de você. Pra quem jogou tão bem, não merecia ser premiado com aquele gol contra.

- Humrum, sei...

- Você gosta de fazer marcação “homem-a-homem”? Tá a fim de me marcar?

- Nossa, você é direta.

- Não fico esperando por um gol contra aos 45 minutos do segundo tempo. Gosto de decidir logo.

E saíram decididos a viver uma grande história de amor. Por causa de Jandira, Cesão até aceitava brincadeiras sobre o fatídico gol. Foram dias em que o zagueiro vivia momentos de glória. Mas o que ele não esperava era que Jandira fizesse uma jogada desleal com ele.

- Não dá mais, Cesão!

- Como assim?

- Aquele gol contra me persegue.

- Te persegue? Como?

- Todo mundo pergunta por ele. Quer saber o que aconteceu com você naquele dia e mais, perguntam como eu posso namorar uma pessoa que deixou o Limoeiro mais um ano na fila.

- Mas, Jandira a gente se ama.

- Amo você mesmo, mas o meu amor pelo Limoeiro é maior. Não dá mais!

- Jandira...

- E mais: o que aconteceu mesmo com você naquele dia pra jogar a bola na direção do teu gol?

-Jandira, eu...

- Perdedor!

Cesão ficou inconsolável. Um gol contra e uma jogada desleal que desconcertou nosso pobre amigo.
Sentamos pra tomar uma cerveja no bar do Zé do Frango quando descobrimos que não há nada tão ruim que não possa piorar.
- Epa! O que é aquilo?

- O que Cesão?

- Olha lá, Jandira e Ceguim juntos. Como assim?

- Valei-me Cristo. É mesmo!

- Pô, mas ela me trocou logo por aquilo?

Enquanto o diálogo rolava, Ceguim com seus inconfundíveis óculos atravessava a rua. Aproximou-se de Cesão e disse:

- Me desculpa, eu me enganei! Pra você a fila anda sim!

Cesão ficou parado, olhando o novo casal sair de mãos dadas como um zagueiro que faz um gol contra em uma final de campeonato.

sábado, 9 de junho de 2012

Cansei de ser bonzinho

Cansei de ser bonzinho. Sou compreensível demais, pacífico ao extremo, conciliador para todos os problemas, mas o que eu ganho com tudo isso? Nada. Pelo menos não aqui na Terra. Pode ser que em um plano superior ao que vivemos eu possa estar acumulando alguma riqueza (espero), mas o que tenho recebido ultimamente é uma série de problemas e uma avalanche de insultos e incompreensões. Por isso mesmo resolvi: cansei de ser bonzinho.

Acordei com esta convicção e resolvi segui-la. Como levanto muito cedo, a primeira coisa que fiz foi pôr uma música bem alta pra poder aumentar meu astral. Nada de preocupação se os vizinhos estão dormindo. Eles que tapem os ouvidos. Afinal de contas, quase todos os dias sou obrigado a ouvir o arrastar de móveis até altas horas da noite ou logo cedo nos finais de semana. Isto sem falar naquele barulho irritante do salto alto batendo no piso. E ainda tem as noites de amor empolgantes em que fico ouvindo grunhidos e sussurros enquanto estou na solidão do meu quarto. Mas parece que minha atitude não atrapalhou ninguém, pois apesar do som alto, ninguém ligou para reclamar.

O dia ia seguindo. Logo na saída, a simpática velhinha do 301 me cumprimenta com aquele sorriso constante e irritante dela.

- Bom dia, meu filho!

- Só se for para a senhora. – Bufo! (ela não merecia, mas estava convicto da ideia)

Percebi que ela tomou um susto. E foi se encaminhando vagarosamente pelo corredor estreito que leva ao elevador.

- Dá licença que estou atrasado! – falo meio que empurrando a velhinha do meu caminho.

Um sorriso meio sarcástico toma conta do meu rosto. Antes de sair do condomínio, mais uma maldade. Chego na saída e o porteiro que sempre me tratou muito bem demora a abrir o portão. Não penso duas vezes. Baixo o vidro e grito:

- Oh, meu filho! Vai abrir esse negócio hoje? Estou atrasado. Emprego não tá fácil assim não, principalmente para profissionais com pouca instrução como você.

- Calma, estou indo. Me perdoe!

- Abre logo isso e para de conversar! – resmunguei enquanto começava a buzinar intermitentemente.

No caminho até o trabalho, mais atitudes más como dirigir ameaçando os motoristas que teimam em andar lentos na faixa de ultrapassagem, acelerando quando o sinal abre só pra ver o pedestre que ainda está no meio da faixa correr desesperadamente, jogando papel pela janela e, como não poderia deixar de ser, estacionando na vaga de idoso. Por que eles têm mais direito que eu mesmo? Pago a mesma quantidade de impostos que qualquer um. E não sonego nenhum (sonegação é uma boa ideia para essa nova fase).

Na repartição, nada de sorrisos ou favores. Cara trancada! Afinal sou pago para mandar e não para ficar distribuindo simpatia. Deixo isso para a moça da recepção que tem de atender bem a todos aqueles clientes chatos.

Resolvi chegar um pouco mais cedo para observar o horário da chegada dos meus amigos (seriam mesmo amigos?) de sala. O primeiro que chega quase meia hora depois do início do expediente, vem com um sorriso aberto dizendo:

- Olá, bom dia! Que surpresa agradável você logo cedo por aqui!

- Bom dia, não né? Boa tarde! Por que o atraso?

- Que é isso, chefe? Tá com raiva?

- Não interessa a você como está o meu humor. Agora me interessa saber o motivo pelo qual o senhor está chegando atrasado.

- Mas foi só meia hora. Eu posso compensar depois.

- Aham, tá certo. Pois sente logo aí que temos muito o que fazer hoje!

E assim foi com todos. Nada de muita compreensão sobre atrasos ou serviços ainda não entregues. Sempre tive a impressão de que por nunca ter levantado a voz para ninguém, jamais ter soltado um palavrão que expressasse realmente o que estou sentindo, as pessoas iam me fazendo de otário.

- Ah, ele é gente boa demais! Compreensivo, sempre sorrindo. É ótimo trabalhar com ele.

- Aham, sei! Pra mim soava mais como: ele é um otário. Pode deixar que ele faz o serviço da gente. Vamos sair mais cedo que o Mané fica aí trabalhando!

Fazia de tudo. Quem não quer um colega de trabalho assim? Estava na hora de deixar de ser assim. O que eu ganhava com isso? Mais trabalho, somente...

E fui assim durante todo o dia. O “gente boa” saiu de campo e entrou o carrasco. Aquele que manda, jamais pede. Agora eu seria respeitado pelo cargo que exerço, não por quem sou. Não dava mais pra viver daquela maneira. Foi o que pensei. Pelo menos até chegar em casa...

O porteiro com o qual eu discuti pela manhã abriu ao portão antes mesmo que eu falasse algo ou esboçasse qualquer tentativa de buzinar. Mesmo sem baixar os vidros, percebi que ele fez questão de acenar e gritar.

- Boa noite!

Subindo as escadas, encontro o vizinho barulhento que mora no apartamento logo acima do meu. Já me preparava para falar umas poucas e boas pra ele quando...

- O senhor é o vizinho que mora logo abaixo do meu apartamento, né?

- Sim sou eu, por quê? (Sabia que ele ia reclamar do som!)

- É que hoje pela manhã o senhor colocou uma música bem alta e foi a única coisa que acalmou o meu filho recém-nascido que insiste em passar a noite em claro. Depois que ele escutou, bem cedo, fechou os olhinhos e dormiu como um anjo. Vim agradecer ao senhor e perguntar se o senhor poderia me emprestar o CD com aquelas canções.

- Mas, mas...

- Só se não for incomodar...

- Tá bom! Vamos ao meu apartamento que eu te entrego.

- Quero aproveitar e pedir desculpas ao senhor.

- Pelo quê?

- Como o Rafaelzinho não dorme direito, às vezes a gente passa a noite fazendo barulho, andando pela casa com ele no colo para fazer com que ele durma. Já fui vizinho de baixo e sei como isso incomoda.

- É verdade, mas...

- Mas a verdade é que agora, graças ao senhor, arranjamos algo para acalmar o nosso pequeno. Muito obrigado!

Mesmo tentando ser ruim a gente acaba acertando. Mas nem tudo estava perdido. Foi só me aproximar do meu apartamento que lá estava a D. Nonô de novo no corredor andando vagarosamente. Era minha chance de terminar o dia com uma maldadezinha. Antes que eu me aproximasse dela, a velhinha virou-se e disse.

- Oh, meu filho! Boa noite. Vi que você não estava muito bem hoje pela manhã e passei a tarde fazendo esse bolo de batata que sei que tanto gosta. É só pra adoçar um pouco o seu dia.

Não pude resistir e acabei abraçando a velhinha e convidando-a para comer bolo com café no meu apartamento. Rimos bastante e ela foi pra casa vagarosamente como sempre, mas com um sorriso enorme no rosto.

- Espero que amanhã você tenha um dia bem melhor que o de hoje. – disse a minha simpática e vagarosa vizinha.

Mal fechei a porta, recebo uma mensagem no meu celular. “Oi, chefe! Saindo agora do trabalho para compensar o atraso. Sei que o motivo não interessa, mas é que pela manhã tinha ido ao supermercado com minha avó e uma pessoa havia estacionado o carro na vaga de idosos. Tivemos de rodar um pouco até encontrarmos outra vaga e a gente acaba perdendo tempo, pois as vagas de idosos estão próximas das saídas pelo simples motivo de que uma pessoa mais velha tem dificuldades de se locomover. Engraçado que o carro era até parecido com o do senhor, mas nem pensei duas vezes antes de dizer para a vovó: ‘Meu chefe respeita tanto as pessoas que jamais faria algo como o que este imbecil fez’. Se for necessário, amanhã compenso mais. Me desculpa!”

Putz! O “imbecil”era eu mesmo! E como fui um idiota o dia todo. Pra que isso?

Hoje descobri que praticar o bem, não é fazer algo bom somente para os outros. É fazer bem a si mesmo. Não adianta querer fazer algo ruim para alguém se mais que estar magoando ao outro, eu estarei me machucando. É cansei mesmo de ser bonzinho, mas estou disposto a superar o cansaço.


quinta-feira, 26 de abril de 2012

Cachorrada

Devo admitir: não gosto de animais de estimação. Mas isso não faz com que eu os maltrate, só não os quero perto de mim. Prefiro utilizar meu tempo com outras coisas. Não me imagino, por exemplo, passear com um cachorro, muito menos ser lambido na boca por aquele ser canino e peludo como muitas pessoas fazem. Enfim, sou assim.

Pois não é que fui me apaixonar justamente por uma garota que amava cachorro? Às vezes tinha a impressão de que ela era mais carinhosa com ele do que comigo. Também pudera, em um dos nossos primeiros encontros, eu para agradá-la fiquei passeando com o cachorro na pracinha perto de sua casa, enquanto ela se ajeitava para irmos ao cinema. Quase duas horas depois, ela aparece com a mesma roupa que estava quando a deixei em casa. Eu já com a cara emburrada e o cachorro pulando feito um louco e balançando o rabo morto de feliz por vê-la. Ela tinha que gostar mais dele mesmo.

Pra piorar a situação, ela não tinha um cachorro. Na sua casa havia três, sendo que um deles, justamente o maior, não ia com a minha cara. Era impressionante:  eu tinha de chegar na casa, esperar o cachorro ser trancado lá no banheiro do quintal e só então podia correr para os braços da minha amada. E mesmo assim com ela dizendo:

- Entra logo amor que o Ralph não pode ficar muito tempo preso.

Ele não, mas eu sim. Porque eu não podia nem chegar perto da janela que ele começava a latir. Era um namoro de sala, parecia aqueles do início do século passado. Dava nem para dar uma escapadinha pro jardim e ganhar uns beijos mais quentes porque a fera sempre estava lá com aquele olhar desafiador para mim.

- Ah, amor! Por que você não gosta dele?

- Eu não gosto dele? O Ralph é que me odeia.

- Ele não te odeia.

- Claro que sim. Quando a gente chega, ele te lambe olhando pra mim com desdém e quando você o larga ele parte pra cima de mim latindo e querendo arrancar um pedaço do meu ser. Isso não é odiar?

Não sabia até quando eu iria aguentar aquela cachorrada.

O tempo foi passando e eu nunca me acostumei com aquela situação, mas a minha sorte ia mudar. Um dia eu resolvi tentar mudar aquela situação. Passei em uma pet-shop comprei um ossão a fim de tentar fazer "amizade" ou pelo menos dar um tom mais diplomático na minha relação com o Ralph.

Toquei a campainha e logo estranhei porque não ouvi os latidos. Ralph me conhecia pelo cheiro e quando eu dobrava a esquina ele já começava a me ameaçar. Mas naquele dia quem veio me atender foi a Lúcia que antes nem disse como de costume: "Prende o cachorro!"

- Amor, o Ralph foi atropelado! - disse Lucinha aos prantos.

- Mas como?
- Abri o portão para minha mãe entrar com as compras e ele saiu correndo atrás do vendedor de picolé. Foi quando uma moto passou e pegou ele em cheio.

- Caramba! E o motoqueiro, como está?

- O motoqueiro, amor? O Ralph é atropelado e você quer saber como está o motoqueiro?

- Me desculpa, mas é que o Ralph é um cachorro.

- Um cachorro? É assim que você considera o Ralph? É por isso que ele te odiava.

- Mas, meu bem e ele era o quê?

- Você ainda pergunta? Ralph era um membro da família, quase um irmão. Quando você brigava comigo e eu chegava em casa aos prantos, era sempre ele que me consolava.

- Tá bom, desculpa. E cadê ele?

- Ele quem? O motoqueiro? É só dele que você quer saber mesmo. Só quebrou umas costelas e já foi pro hospital.

- Não, Lucinha. O Ralph? Cadê ele?

- Tá sendo operado agora.

Já não estava mais. A mãe dela acabava de entrar na casa dizendo que o Ralph tinha ido para o "céu dos cachorrinhos". Lucinha aumentava o som do pranto, enquanto eu a consolava com uma felicidade contida no rosto.

- Calma, Lucinha! Não chora.

- Ora não chora. Você fala isso porque está aí todo alegre com a partida do Ralph.

- Não diga isso (Nessa hora tive de segurar o sorriso mesmo)! Vamos fazer o seguinte: amanhã te dou um cachorro novinho, igual ao Ralph.

- Como é que é?

- Um novo mascote! Que tal?

- Um novo mascote? Ah, é! Não precisa!

- Como não?

- Não porque já tenho uma anta em casa: você. Insensível!

- Calma, Lucinha!

- Sai fora, agora! Cachorro!

Desde este dia perdi minha gatinha. Por isso não gosto de animais.

domingo, 22 de abril de 2012

Uma palavra

- Me define com uma palavra.
- Ah?
- Vai lá! Como você me definiria com uma palavra.
- Sei lá! Você é tão complexa que acho complicado definir em uma só palavra.
- Quer dizer que é assim que sou pra você?
- Assim como?
- Complexa e complicada. Minha definição com uma palavra pra ti é essa, pois pelo menos escolha uma dessas duas palavras.
- Olha, você não está entendendo...
- Entendi sim. Bora, desembucha: uma palavra. Agora. Vai.
- Tá bom. É... é...
- Oh, coisa difícil. Depois a complexa e complicada aqui sou eu.
- Maravilinda!
- Ah?
- Maravilinda. É esta a palavra pra te definir.
- Ah, mas isso não existe. Não tem no dicionário.
- Você pediu uma palavra. Não comentou nada a respeito de dicionário. Pra mim você é maravilhosa e linda, ou seja, maravilinda.
- Gostei não.
- Não?
- Você não sabe me definir e fica inventando coisas.
- Mas meu bem, o amor é mesmo assim: indecifrável. Ninguém consegue definir o que sinto por você, por exemplo.
- Ah, é? Sei...
- E olha, não sei pra que esse negócio de definições. E mais: em uma palavra. Onde já se viu?
- Insensível.
- Ah.
- Te defini. Com uma palavra.
- Amor...
- Insensível.
- Tá bom, é assim? Chata!
- Ah?
- Chata.
- Barrigudo.
- Vesga.
- Ah, vesga eu? Era só o que me faltava. Neste instante eu era “maravilinda”, agora sou vesga.
- Quem começou a insultar foi você.
- Quer saber de uma coisa? Pra mim chega!
- Como assim?
- Chega! Fim! Acabou!
- Calma!
- Tchau!
- Mas...
E saiu assim da minha vida: com uma palavra.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

(Des) Lembranças de Carnaval

Se existe algo que mantém o cérebro colado ao crânio, eu tenho certeza que em mim este “algo” está com a data de validade vencida.  Que dor de cabeça é essa! Tento levantar e parece que havia algo solto dentro dela. Ai como dói!

Mas, não há nada tão ruim que não possa piorar. Onde é que estou? Como vim parar aqui? Não me lembro de ter colocado espelho no teto do meu quarto... Muito menos este aparelho de ar-condicionado... Espera, quem é essa pessoa do meu lado?

Calma, muita calma! Deixa eu pensar... Ai! Mas como vou conseguir raciocinar algo com meu cérebro descolado? O jeito é agir! Ela tá se mexendo...

- Bom dia!

- Bom dia! Ah?  Onde é que estou? Quem é você?

- Não se preocupe! Acabei de fazer as mesmas perguntas, só esperava que você as respondesse.

- Ora como não me preocupar: estou deitada nua em uma cama, num lugar que não sei e com um cara que não conheço.

- Não, mas com certeza a gente se conhece! Caso contrário não teríamos parado aqui, né?

- Sei lá! Não sei de nada! Peraí, você colocou alguma coisa na minha bebida. É isso! Está tudo explicado!

- Tá maluca? Como assim: “colocou algo na minha bebida”?  Não lembro sequer de ter bebido.

- Nem eu... E agora?

- Agora façamos o seguinte. Vamos nos vestir e tentar descobrir o que aconteceu. Refazer passo a passo.

- Isso mesmo! Boa idéia! Vá lá!

- Pra onde?

- Ora, se vestir!

- Tá doido? Vou bem deixar você me ver pelada!

- Mas estamos os dois debaixo deste lençol, nus, já devemos ter feito coisa muito pior (ou melhor)...

- Sim, podemos! Mas você não lembra. Definitivamente não vou sair debaixo deste lençol!

- Tá bom! Continuemos aqui! Vamos lá! Qual a última coisa que você lembra?

- Hum... Deixa eu ver! Estava em um bloco de Carnaval, quando um cara chegou pra mim e disse: quero descobrir a princesa que está por trás desta máscara!

- E você?

-  Tirei a máscara e ele disse: “Meu Deus! Não é uma princesa é a bruxa!” . Saiu correndo e rindo! Além de me dar uma cantada barata, ainda me xinga.

- Realmente...

- Como assim, “realmente”? Você me acha uma bruxa?

- Não, tô falado da cantada!

- Ah, bom!

- Você é muito bonita! Mesmo descabelada, acordando, com o rosto meio amassadinho... Uma princesa! Besta foi ele!

- Você acha?

- Claro, mas isto não nos coloca aqui!

- Claro que sim!

- Como? Não lembro absolutamente nada. E essa história que você contou, o cara não era eu.

- Mas não fosse ele, eu jamais teria recebido um elogio tão carinhoso assim logo de manhã. Acho que foi o destino que nos colocou aqui.

- Aham... Sei...

- Quer saber de uma coisa: pouco importa como viemos parar aqui. Pra mim interessa é que agora estou aqui com você. Por sinal, prazer sou a Letícia!

- Ah, beleza! Sou o ...

- Não me interessa quem você é! E mais, já que não lembramos do que fizemos, vou fazer algo para você nunca mais me esquecer.

- Tem certeza?

- Qual sua fantasia?

- Vem cá que eu te conto...